Posts Taggeados com ‘Daniell Rezende’

Fase Azul – 2

Estudo sobre Miró n. 1


Continuo fazendo os meus estudos no iPhone. Entre as vantagens, tem o inegável fato de que, no iPhone, eu não sujo os dedos de tinta. Não que eu me incomode tanto assim de ter os dedos manchados de azul, vermelho ou qualquer outra cor. O problema todo é que, por se tratarem de estudos, procuro fazê-los sempre com um manual adequado sempre à mão. E manchando os dedos, mancho também o manual – de tal modo que as tintas respingadas no livro se confundem com as reproduções das obras em que tento me inspirar.

Da última vez em que tentei um estudo usando tela e tintas de verdade, copiando em detalhes a pintura de um livro, acabei fazendo um jardim impressionista com uma grande impressão digital vermelha por cima.

Mas pintar no iPhone também tem seus inconvenientes, é claro. Para começar, não consigo pintar ouvindo música – ocasionalmente esbarro na tela de um jeito que o Concerto para Piano n. 3 de Beethoven dá lugar a uma animada marcha-rancho do Mestre Caculé da Escaleta. Nada contra as marcha-ranchos do Mestre Caculé da Escaleta, mas elas simplesmente não combinam com o velho espírito atormentado de um artista rabiscando em seu iPhone.

Como meus estudos de Rembrandt estavam todos saindo com cara de Miró, decidi dessa vez fazer um estudo apropriado de Miró. Comprei o livro “Só Não É Miró Quem Não Quer”, que ensina através de ricas ilustrações e personagens divertidos o passo-a-passo para se pintar um Miró.

De acordo com o livro, um dos principais métodos é pintar enquanto fala ao telefone. Algumas das maiores obras de Miró foram pintadas assim, com aqueles rabiscos que se faz com a mão direita enquanto a mão esquerda segura o aparelho para que você finja estar interessado na conversa. Um grupo de acadêmicos barra-pesada encontrou um obra esquecida de Miró que tinha o número de um disque-pizza anotado no centro da tela, entre um asterisco e uma bola vermelha.


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Conquest


Adquiri faz um tempo o estranho hábito de deixar sempre um post-it colado no computador. Um post-it sem nada escrito.

Para me lembrar que não tenho nada de muito importante para me lembrar. Nem para fazer. Só estou fazendo hora pra alguma coisa realmente importante. Até lá, levo uma vida simples, sem grandes realizações.

Minha maior conquista foi abrir um pote de palmito que estava fechado demais. Foi uma grande vitória, dessas que pretendo contar para meus netos, se sobreviver para conhecê-los.

Meus netos, eu direi, um dia eu abri um pote de palmito que parecia impossível.

Espero que isso dê ânimo aos garotos. Torço para que, naqueles momentos difíceis, eles pensem: “se o vovô conseguiu abrir um pote de palmito, eu consigo qualquer coisa.”

Mas não foi fácil. Foi um épico. Para abrir o pote, precisei de um lança-chamas, um capacete de rugby, um martelo e dois chinelos velhos. Foram dois dias martelando a tampa do pote, até que ela cedesse um pouco. Em seguida, foi só usar o lança-chamas, o capacete de rugby e os chinelos velhos, como se faz normalmente.

E mesmo essa grande conquista teve seu lado triste.

Assim que abri o palmito, lembrei que não era palmito o que eu queria, mas sim um bom carré de cordeiro ao molho de menta.

Desde então, deixo o post-it em branco no meu computador. Assim, quando eu acho que sou importante, olho para ele e lembro que sou só o Daniell, sem grandes compromissos, nem grandes realizações. Mas com um talento incrível para abrir potes que não me interessam.

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Quarteto de Cordas n. 6, op. 18


 

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Achei que seria de mau tom incomodar a pessoa ao meu lado, pedindo para me filmar invadindo no palco pelado. Então, não há nenhum registro do momento, infelizmente. Exceto na minha memória – e na do pessoal da fila 1 no setor A.

 

Tudo que fiz foi tirar essa humilde foto, discretamente, enquanto o lugar ainda estava vazio, com a câmera do meu celular. Acho que dá pra ter uma ideia de como é espetacular essa Filarmônica de Berlim. E esse aí é o salão pequeno, de música de câmara. Diferente do que se pode esperar de uma sala de concertos tradicional na Alemanha, essa aí é moderníssima.

 

De resto, o concerto se dividiu em três partes.

 

No primeiro ato, o quarteto de cordas de Beethoven, que foi o motivo para eu estar ali. Não decepcionou, e a expectativa era grande. Foi perfeito.

 

A segunda parte trouxe uma première. Era uma peça de um compositor vivo (ou, ao menos, meio barro, meio tijolo), que estava lá para ser ovacionado. Foi interessante, porque nunca antes eu havia visto vaias em um concerto. E vaia em alemão machuca de verdade.

 

Acontece que a obra do sujeitinho só trazia umas notas sustentadas ao limite da exaustão, numa agonia que deve ter durado quase meia hora (mas foi mais difícil de aturar que meus dois anos de faculdade de economia). Era uma dessas coisas pseudo-modernas, arrojadas e muito à frente do nosso tempo. Insuportável. E os músicos tocavam com tal seriedade, que eu cheguei a dar algumas risadas, achando que era um esquete do Monty Python.

 

No meio da música, um senhorzinho começou a tossir. E o curioso é que ninguém sequer olhou feio pra ele. Assim que terminou a música, alguns aplaudiram por educação, outros porque acharam que gostaram mesmo, outros não aplaudiram e o resto começou a vaiar.

 

Tudo indica que esse compositor ainda vai contar a história de como sua finalmente reconhecida obra-prima, que mudou a história da música, foi vaiada na première. Espero que isso aconteça, porque aí eu vou contar para meus filhos:

 

- Papai estava lá. E quase jogou um sapato na cara do violoncelista.

 

Honestamente, não aceito isso de música erudita contemporânea. Já tentei fazer uma composição de sucesso, mas o mundo não entendeu. Era o meu Concerto para Reco-reco, Serra elétrica, Matraca e Orquestra de Gaitas-de-Fole número 2. O primeiro havia ido bem, mas era mais conservador. Dessa vez, eu quis revolucionar. Coloquei na partitura que todos os músicos deveriam tocar vestidos de gorila. O público não aceitou e fui vaiado, como o compositor da música de ontem.

 

Por isso, entendo como ele se sentiu. Espero, no entanto, que ele também entenda como eu me senti, ouvindo aqueles sons irritantes logo depois de um quarteto de Beethoven.

 

Mas depois terminou tudo bem com Mendelssohn.

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I’m a Stranger Here


Uma das melhores noites de sua vida não foi uma noite de que deveria se vangloriar.

Foi em Berlim, claro. Mas dá pra ser mais específico.

Foi no Lido, na Schlesiches Strasse com Curvy qualquer coisa. A música estava ótima e ele estava sozinho, depois de ter jantado com o amigo em mais um restaurante asiático.

A música estava excelente. Devia estar tocando a nova do Weezer, quando ele notou aquela menina bonita.

A menina dançava bonito. Ele tem uma coisa por meninas que dançam bonito. E também por meninas bonitas, que tinha aos montes por ali. Mas aquela era diferente.

Ela foi ao bar, ele foi atrás. Pediu uma quarta vodka, sem lá muita vontade – era só pra ter desculpa pra estar ali no balcão.

- Hallo. – ele disse.

Ela sorriu. Sorriu. Era inacreditável uma garota daquelas sorrir assim, para um “Hallo” desajeitado.

- Sprechen sie Englisch?

- A little bit.

- A little bit is good enough.

Ela sorriu de novo. Ele contou mentalmente: eram dois sorrisos até agora.

- I was just wondering how I would get to talk to you. I don’t know more than four or five words of german.

- Yeah?

- So, what’s your name?

- Annika. – ele não fazia ideia de como se escrevia o nome, mas concluiu que era assim, com dois “n”. Gostava disso de letras dobradas no nome.

Conversaram um pouco e ele já havia perdido a conta do tempo e dos sorrisos. Não fazia ideia de quanto mais ela sorriu. Mas cada sorriso fazia com que ele se esquecesse mais ainda do tempo. Não sabia nem se já havia terminado de tocar a nova do Weezer.

Poderia estar tocando a nova dos Aviões do Forró e ele não perceberia.

Pediu que ela ensinasse qualquer coisa em alemão. Tentou explicar o que era cafuné, fazendo um gesto ridículo de quem coça a própria cabeça. Ela pode ter pensado que a palavra era piolho ou Celsum Azul.

A linda Annika continuou sorrindo, simpática. Falou que era a primeira vez ali. Ele achou uma coincidência, era a primeira dele também.

E de repente, Annika se despediu. Disse qualquer coisa e se foi, para encontrar as amigas na pista de dança.

Ele pegou os pedaços do seu coração partido no chão. Voltou para casa às 5 da manhã, com os cacos no bolso. Iria levá-los de volta a Carmen, esperando que ela sim pudesse finalmente colar tudo aquilo de volta.

Para isso, bastava um cafuné.

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This Time Tomorrow


Quem me conhece, sabe bem: estive no Vietnã. E carrego até hoje, além de alguns traumas, uma placa de aço implantada na minha cabeça. Não foi por causa de uma granada que explodiu. Na verdade, eu fui operar apendicite. Mas houve uma confusão: no lugar de me arrancarem o apêndice, puseram-me uma placa de metal na cabeça. Não sei ainda o que aconteceu com o pobre coitado que sofreu uma explosão de granada. É provável que não vá sofrer jamais de apendicite.

Digo isso porque essa placa na cabeça me traz problemas. Embora possa servir de entretenimento em festas e maneira de puxar assunto no elevador (“Sabe? Eu tenho uma placa de aço na cabeça. Aqui, ó.”), apesar disso preferia não tê-la. Explico com um exemplo recente:

Digito aqui no aeroporto de Barajas em Madri, onde vim fazer a conexão para Berlim. Agora há pouco mesmo, fiz apitar o detector de metais.

Tirei o cinto, o sapato, o capacete da Primeira Guerra Mundial, e continuava apitando. Depois de ficar apenas de cueca, o guarda finalmente aceitou a minha explicação da placa de metal na testa. Contei toda a história: a apendicite, a operação trocada, o Vietnã. Ele, o guarda, foi compreensivo: havia estado na Guerra da Coréia e sofria até hoje de baixa tolerância a lactose por conta dos horrores que viveu por lá.

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Impossible Germany


Segunda-feira eu pego o voo para Berlim. Não vou a passeio, vou para uma missão importante, como já havia mencionado aqui. Não vou mentir ou me fazer de blasé: ando ansioso e animado com a história toda.

Disseram-me que tudo que vou precisar por lá, neste trabalho, é do meu inglês. Conto com isso, porque sei quase nada de alemão.

Aprendi, sim, a cantar Ode a Alegria no idioma original (incluindo o “o, Freunde, nicht diese töne…” do começo). Isso até pode ser bastante útil para, por exemplo, fazer amigos, separar uma briga feia em algum bar.

(“Töne”… Gosto de tremas. Tenho esperanças de matar as saudades delas por lá.)

Sei pedir “currywurst”, “kassler” e “eisbein”. Acho que isso já basta para uma dieta completa e saudável.

Também digo “carro!” em alemão, assim com exclamação. Isso é importante para evitar atropelamentos. Vejo alguém prestes a ser atravessado por um carro na rua e grito:

- Volkswagen!

Torço para a pessoa entender o meu sotaque e desviar a tempo do automóvel que avança.

Também sei dizer “máquina de lavar” em alemão. Não sei porque aprendi isso, mas espero encontrar bastantes máquinas de lavar para poder apontá-las e dizer, orgulhoso:

- Waschmachine!

Em casos mais específicos, posso até dizer a marca: “Bosch Waschmachine!”

Meu vocabulário também compreende algumas letras do Kraftwerk. Posso, entre outras coisas, pedir um eletrocardiograma, caso dê vontade (o seguro-viagem ajuda bastante, nesse caso).

Posso, se necessário, cantar “I Wanna Hold Your Hand” em alemão. E saber uma música dos Beatles no idioma local sempre abre portas.

E como qualquer um, também sei dizer “ich liebe dich”. Não é o tipo de coisa que se deve sair falando por aí, qualquer que seja o idioma – quase sempre é mais honesto e recomendável apontar e dizer “waschmachine” que gastar uns “ich liebe dich” a torto e a direito.

Mas nunca se sabe.

Dou notícias de lá em breve, se eu conseguir dizer “tem internet aqui no flat?” em alemão.

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Heartbreak Hotel


Moro em um flat há um tempo – um ano e meio, mais ou menos. Uma das coisas interessantes de se morar em um flat é a vizinhança.

Em flat, você encontra três grupos principais de pessoas:

1. As putas (embora aqui no meu flat, eu veja poucas);

2. Os casaizinhos jovens que acreditam no amor, mesmo em um apartamento essencialmente projetado para homens e mulheres solteiros e putas;

3. Pessoas com vidas miseráveis.

Esse terceiro grupo é bastante interessante. Boa parte das pessoas que moram em flat tem uma história trágica para contar, e bastam alguns andares de elevador para você ouvir algumas delas.

No décimo andar, por exemplo, tem um sujeito que se divorciou da mulher quando descobriu que ela tinha toda a discografia do Djavan.

No sétimo, já soube de um sujeito que perdeu tudo na vida quando apostou sua fortuna em um cachorro bastante veloz, só que durante uma corrida de cavalos. O pobre cão foi atropelado pelo Empreiteiro de Xangai na raia três.

Jamais esquecerei a história daquele senhor que já foi um promissor talento das artes plásticas, mas foi acusado de plágio pelo primeiro canário-da-terra pintor do mundo.

Isso sem contar com a história da bailarina do quinto andar, que teve sua carreira interrompida quando o balé clássico saiu de moda para dar lugar à lambaeróbica.

Não que eu esteja me excluindo desse grupo de pessoas. Sim, eu tenho minhas histórias trágicas e as carrego pelos corredores e elevadores do prédio, até a portaria ou a piscina. Mas no fundo, eu continuo morando no flat porque isso me poupa de lavar a louça pela manhã.

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Life During Wartime


Ando pensando muito na Alemanha. Bons tempos aqueles, da Guerra Fria. Quando havia o Muro. Eu gostava do Muro, porque dava uma noção de organização da cidade. Berlim ficava bem daquele jeito, dividida em dois ambientes. Gosto da ideia de loft, mas não necessariamente aplicada a uma cidade inteira.

Além do mais, na Guerra Fria, a vida era muito melhor. Não havia essa onda de remakes de seriados de TV dos anos 80, por exemplo.

Vivi bastante aquela época. Eu trabalhava de espião infiltrado na Berlim Oriental, sob o disfarce de vendedor de carteiras de couro. Não vendia muito, porque no mundo comunista não havia uso para uma carteira com espaço até cinco cartões de crédito.

Mas eu estava lá, espionando. Não sabia bem em que eu devia estar de olho. A coisa era confidencial pra valer. Mas eu estava de olho. As mensagens entre os agentes eram, obviamente, cifradas. Lembro vagamente dos códigos usados.

Usávamos letras de músicas dos Skatalites para nos comunicar. Dava trabalho, porque a grande maioria das músicas deles era instrumental. A única parte que eu lembrava era “simmer down” – que, no nosso código, significava “preciso de um bom currywurst quente aqui”. Passei aquele tempo todo comendo currywurst.

Mas eu gostava daquilo, de ser espião. As intrigas, os perigos, os segredos, os concertos da Berliner Symphoniker. Conheci lindas espiãs russas que tentavam me matar com artimanhas sensuais envolvendo espartilhos, martinis e serras elétricas escondidas sob os travesseiros.

Bons tempos aqueles. Só sobrevivia quem tivesse nervos de aço. Eu consegui sair ileso graças a uma série de armas de alta tecnologia e também ao fato de eu sempre errar o endereço do tiroteio.

Para evitar ser reconhecido como um agente secreto enviado pela CIA, eu usava o nome falso de Ronald Reagan Jr. Todos os documentos foram forjados para que jamais percebessem minha verdadeira identidade. Com o passorte, eu conseguia atravessar facilmente o Checkpoint Charlie a qualquer momento e ainda tinha desconto no cinema com minha carteirinha de estudante de biblioteconomia química.

É claro que na Alemanha Oriental não deixavam passar qualquer filme. Por algum motivo, eles implicavam especialmente com os do 007 e com os do Chevy Chase. Uma pena, porque eu gostava bastante de “Férias Frustradas”.

Hoje, me resta a lembrança da boa e velha Guerra Fria. Mas ainda tenho uma missão que deixei de cumprir por lá: descobrir qual bebida vai bem com currywurst. Já estou decorando novamente a letra de “Simmer Down”. Posso precisar.

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Bad to the Bone


É, eu jogo sinuca. Pelas regras equatorianas. E a sinuca equatoriana requer equipamento de segurança: capacete, joelheiras, cotoveleiras, luvas de amianto e desfibrilador.

Porque a sinuca equatoriana é um esporte de contato, perigoso, violento. Na última partida, quebrei ossos que ainda nem estavam catalogados no corpo humano. Foi quando eu acertei a bola 5 na caçapa do canto. Pela regra, quando isso acontece, fecha-se a jaula e você tem que enfrentar cinco leões furiosos e uma calopsita faminta, armado apenas com lenços de papel.

Se ao final do combate, as bolas ímpares não tiverem sido encaçapadas, derramam óleo fervendo sobre a mesa – o que dificulta um pouco caso você não tenha passado giz o suficiente no taco.

Mas se o jogo fica mais arriscado, também ganha em dinamismo e emoção. Quase tão empolgante quanto o Jogo da Velha Equatoriano.

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Blues for Dancers


Ela dançava no canto dela, com os fones de ouvido. Pela batida dos pés, reconheci o ritmo: era um trip-foxtrot. Ela dançava bonito, era estranhamente suave e intensa ao mesmo tempo. Pensei “puxa, está aí uma boneca que tem ritmo”. Tentei puxar da memória alguns dos meus músicos preferidos de trip-foxtrot. Lembrei de Wilheim do Agogô e puxei papo.

- É Wilheim do Agogô?

- É sim. – Dei sorte.

- Gosto muito do som do Wilheim. Certa vez, viajei para Assunción só para ver um show falsificado dele.

- É, ele é ótimo. Adoro o segundo álbum dele.

- Qual? O que tem “Lactobacilo Bom É Lactobacilo Morto”?

- Isso! Essa é a música que foi proibida nas rádios depois do fim da ditadura!

- Wilheim sempre foi um sujeito polêmico. Lembra aquele clipe em que ele toca agogô na Praça de São Pedro?

- Lembro. Foi lá que ele foi ameaçado de morte por tocar “Na Boquinha da Garrafa” em compasso ternário!

- Olha, eu tenho dois ingressos pro show do Wilheimzinho do Agogô, o filho para quem ele deve trinta e dois anos de pensão. Topa ir?

- Ah, eu já li o livro. Acho que não vai ter graça ver o show já sabendo o final.

- Quer tomar um café, então?

- Não, mas aceito apostar uma corrida de monociclo em Pinheiros. Quem chegar primeiro na Vila Madalena, perde.

- Aí não vai dar. Hoje é meu rodízio.

- Pena. Quem sabe a gente não se esbarra por aí?

E assim ela se foi, linda, deslizando no chão e ainda balançando a cabeça no ritmo dinâmico do agogô.

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