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TOCA RAUL!

Quarta, 20 de Agosto de 2008

O artista já nasce artista. Seu choro no berçário é diferente, cativa ou assusta, faz com que os outros bebês o encarem fixamente com os olhos, para surpresa dos adultos por trás da vitrine.

E o artista cresce, fica introspectivo em algumas fases da infância, se isola, não é escolhido para o time de futebol da escola...

Noutras épocas ele grita, quebra coisas, não compreende suas razões de existir, de ser reprimido, sofrendo os mártires da vida sem poder mudar o mundo de uma só vez, como tanto queria.

Sua ira só pode ser amenizada ao encontro fatídico que o destino lhe reservou à maior expressão de todo seu sentimento: a guitarra! O destino tardou mas não falhou em apresenta-lo a esta deusa criada por mãos humanas, que de madeira e aço soa o despertar do espírito do artista.

Mas novas etapas ainda o sacrificarão por anos a fio, calejando os dedos e os tendões, enquanto sua biologia adapta-se à nova companheira.

A partir daí, já nos corredores da adolescência, o artista faz sua volta ao mundo, renovado e aberto a oferecer seus dotes aos demais humanos. Nesta jornada, o artista encontra semelhantes, outros que, como ele, tanto buscaram nos sons e nos vinis uma forma maior de viver.

Ah, nada como reunir-se com quem sintoniza a sua mesma freqüência, seja ela entoada por Elvis ou Ozzy, Noel ou Jobim... Aí cria-se a irmandade, a união. A banda.

Como que em um casamento, brigas, paixões, contradições e amizades são reforçadas para juntar um grupo de jovens adultos na mesma música, no mesmo entrosamento. Ensaios e mais ensaios, as primeiras apresentações para família e amigos, o contato com o showbusiness e, então, o show de verdade.

Preparações mil, investimento em equipamentos caros que proporcionem boa qualidade sonora, discussões com o empresário, com o dono da casa, com a transportadora, com os seguranças... Tudo para que o público possa entreter-se no melhor clima musical possível.

E, ali, onde tudo é sagrado entre as luzes quentes, em meio à nevoa de gelo seco e nicotina, sobre o palco ainda à meia luz... À primeira esbarrada para afinar as cordas da bela deusa Strato, um filha duma puta no fundo do boteco grita: “TOCA RAUL!”, seguido dos risos enfadonhos de outros pingados, para ser ele a estrela da noite, repetindo a cada pausa da banda a mesma e célebre expressão: “TOCA RAUL!”. Já irritando o resto do público e até mesmo seus ébrios companheiros.

Um dia, um artista desses, ao ouvir este insulto, irá rachar a cabeça de alguém com a deusa encordoada. Ou voltará à fase de reclusão, afastado dos palcos por decepção.

Mas se Raulzito ainda estivesse entre nós, plantando capim guiné, diria que um maluco deixa o outro ser beleza, sem furos e sem medo da chuva, pois entre tantos quintais, discos voadores, trens e linhas de metrô, de palco em palco os artistas ainda podem procurar seu cume calmo, com coragem se o que querem é aquilo que pensam e fazem. Mesmo que se ouçam as vozes dos tolos e seus ouros, gritando: “TOCA RAUL!”.
 



Canalizado em PVC por Ivan Volpe | texto abduzido por 3