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Tente outra vez

Quinta, 31 de Julho de 2008

Medida controversa a do governo. Desafiando os crentes e os crédulos, postulou oficialmente a não existência da vida pós-morte. A conseqüência prática disso foi a criação do programa “Bola Extra”.

O programa funcionava como as máquinas de pinball a cujo o nome fazia referência: se você fosse merecedor, podia tentar de novo. Se você fosse um cara legal, mas, por alguma razão, sua vida tivesse dado errado, teria a oportunidade de recomeçar do zero. Você ganhava novo nome, nova cara, novo endereço e, um novo passado, além de uma quantia razoável para dar início à nova existência. Não é preciso dizer que todo mundo quis usufruir do programa. Quando do lançamento, os primeiros inscritos eram aqueles que levaram um pé na bunda e aqueles cujo time tinha caído para a segunda divisão – não à toa, as linhas do serviço de atendimento ficaram congestionadas logo de cara. Mas não era para quem quisesse e quando quisesse. Você precisava se inscrever, pegar uma senha e aguardar a sua vez, o que geralmente levava um tempo. Passada a espera, uma junta analisaria seu caso e determinaria se sua vida realmente tinha dado errado, se não valia a pena tentar mais um pouco, se esse era o momento certo para abortá-la e, principalmente, se você era gente boa o bastante para merecer mais uma tentativa.

No princípio, houve um certo favorecimento de familiares, amigos e de quem molhasse a mão dos membros da junta, mas não por muito tempo. O esquema foi descoberto e uma nova junta foi formada. Os membros da antiga foram destituídos e não tiveram direito à bola extra. Quando as coisas começaram funcionar como deveriam, chegou-se à conclusão de que poucas vidas realmente deveriam ser interrompidas antes do tempo e, daquelas que deveriam, o percentual de merecedores de uma nova tentativa era quase ínfimo. Ninguém conhecia alguém que tivesse desfrutado do benefício – o que podia se dever ao fato do programa ser de fato eficiente.

Depois de um tempo, diante das dificuldades de se obter a chance a mais, as pessoas começaram a tentar ser melhores para, assim, ser merecedoras. Como resultado, suas vidas também melhoravam e elas desistiam de candidatar-se ao programa, que, em algum tempo, foi cancelado.

Aquela coisa toda por Leandro Leal | Tá esperando o que pra descer o pau?