Blogs do Morfina
Menu Lateral
Perticipe do Morfina Sobre o Site Fala com a gente Acesso o arquivo Participe do Morfina
Home > O Pé de Feijão > Se o Buda Tivesse Hemorróidas

Se o Buda Tivesse Hemorróidas

Segunda, 30 de Junho de 2008

Cagar é um ato criativo.

Você busca inspiração em uma revistinha, na paisagem da janela, lendo a poética literatura de porta de toalete, ou simplesmente contempla, meditativo, esvaziando a mente durante o ato supremo até irromper o barulhinho do dito cujo pousando suavemente (ou nem tanto) na água.

Mas aí vem a modernidade. Um dos grandes problemas da criatividade contemporânea, vocês hão de convir, é a pressa. Nada menos produtivo ao processo criativo que a pressão para criar com hora marcada ou simplesmente “o mais rápido possível”, “pra ontem”, “ASAP” ou qualquer outra merda de jargão corporativo, publicitário, editorial ou o raio que o parta.

Tente imaginar, por exemplo, Fernando Pessoa vorazmente formulando mais um heterônimo porque o editor sacou que vende bem essa história de múltipla personalidade do eu lírico; ou o Einstein tentando terminar a fórmula da relatividade logo porque depois ele tem ainda que passar no banco, ir à academia fazer um pilates e dar um pulo rápido na vernissage do último livro do Freud; ou o Buda morrendo de pressa para tentar iluminar antes do inverno chegar porque faz muito frio embaixo daquela figueira sagrada em Bodh Gaya.

Mas isso tudo fica quase irrelevante quando você imagina o pecado que é apressar um cocô.

Não pode. Aquele momento de esvaziamento completo, de cumprimento da vocação fisiológica, de concretização do que temos de mais visceral, o verdadeiro e único êxtase retal (ao menos o único recomendável pelo ministério da saúde), é um dos momentos mais preciosos do cotidiano. A criação anal, tal como a criação mental, oral, visual, musical, etcetera e tal, deve ser levada muito a sério. Para isto é fundamental que seja dado o tempo necessário para o caminho entre o momento do input e seu desdobramento natural, o output. É como quando você se propõe a criar uma obra de arte: alimenta com inspiração e deixa decantar. Se bem alimentadinho (input), o produto (output) será definitivamente uma obra de arte. Se alimentado com fast-food, comendo em pé, falando no celular, vira, no máximo, publicidade.

No meu caso comi, hoje, bem devagarzinho, curtindo cada momento, o bacalhau da Inês.
 



O Aloísio que não é do campo é o Aloísio da Cidade | 4 leitores já mijaram neste póst