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O Velho e o Peixe
O Velho e o Peixe
Segunda, 23 de Junho de 2008

Joan Miró - O Peixe que Canta
- Miró, por favor volte, seu avô está nas últimas, eu acho que ele não vai resistir.
Enquanto achava hipócrita ir visitar o avô doente só porque ele estava nas últimas sendo que nunca havia dado muita atenção ao velho, Miró interrompeu seu mestrado em botânica no México e foi visitar a família no Brasil. A instrução da mãe era que o distraísse, contasse coisas novas, falasse das plantas que ele andava estudando, em suma, o animasse de alguma forma.
Passou duas agradáveis tardes jardinando com o avô, voltou para a casa da mãe, comeu um macarrão com frango, garantiu que o velho estava mais feliz e saudável do que ela, que só fumava e tomava café e não tinha namorado.
- Posso voltar pro México agora?
Ela não acreditou e foi conferir.
- Papai, você está bem? – Ela olhava atônita para o pai, o velhinho de 70 e tantos anos que com a cabeça jogada para trás no sofá divagava com um sorriso orgasmático no rosto. Insistiu, indecisa – Papai...?
- Shhh, ouça!
Completo silêncio na rua. Na casa solitária também. Sua mãe havia falecido já há 8 meses e seu pai entrara em depressão, provavelmente pela iminência da morte ou pela perda da grande companheira de vida e único amor. A família tentou de tudo: levaram-no para passeios e uma viagem para praia (belo desastre que foi aquilo), deram-lhe presentes, apareciam freqüentemente para almoçar, levavam livros e um computador com acesso à internet. Até um peixinho dourado a família depositou num aquário redondo para ver se ele se animava em cuidar de outra vida. Nada surtira efeito. Mas agora, lá estava ele deliciando-se com algo que ninguém poderia saber o que era.
Alguns minutos de nirvânica meditação o velho despertou e começou a bater palmas, sorrindo largamente e limpando uma lágrima dos olhos. “Que coisa mais linda”, ele clamava. “Bravo!”. “E olha essas cores! Essa voz”. E retomava a conversa:
- Chá?
- Papai, do que você está falando?
- É uma folha que cresce aqui no jardim, foi Miró quem...
- Não, papai, da voz!
- Ora,minha filha, vocês jovens não sabem apreciar a beleza do mundo. – E ele levantava do sofá animado e andava até o peixinho dourado, vermelho, azul, roxo, com uma aura esverdeada ao redor e pedia – Que voz! Mais uma, por favor, mais uma.
Com a barbatana elegantemente apoiada na beirada do vidro, aquele peixinho abria seu bocarrão e com uma voz de barítono profundo trovoava Frank Sinatra, Dean Martin, Bing Crosby, Louis Armstrong, Perry Como, Nat King Cole e uma vez ele até chegou a cantar Tom Jones, que o velho não soube reconhecer, mas teve que admitir, a música tinha lá seu balanço.
A filha deixara o pequeno sobrado antes da sacramentada hora do chá incapaz de decidir se estava feliz pelo pai ter encontrado algum prazer na vida ou se chamaria logo um psiquiatra. Pelo sim, pelo não ela rezava para Deus dar muita saúde ao peixe.
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