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O Quarto de Vicente

Segunda, 30 de Junho de 2008


O Quarto em Arles, Vincent Van Gogh, 1889.

Téo entrou no quarto de Vicente, seu irmão, pela última vez e não consegui deixar de descrevê-lo para si mesmo.

Parede azul. Vicente é bonito. O quadro perdura. Lençol vermelho. Vicente está bonito. Raquel sumiu. Ela perfuma doce. Doce e gostoso. Velhas tábuas. Cinza-sujeira. Mais quadros. Muito quadros. Vicente é bonito. Vicente verde. Assim meio de lado. Raquel sumiu. Fugiu. Tem medo. Não levou nada. Só fugiu. A mesa está posta. Vicente não vai voltar. Bonito e enterrado. Rosa baço. A luz difusa. Rosa baço. Embaço da janela. Cinza-sujeira. Também, tudo é sujeira. Rosa difusa. Se espraia no chão. Rosa-sujeira. Impossível viver. Não acredito. Eu também, rosa-sujeira. Cinza-sujeira. Eu também estive aqui. Na rosa-sujeira. Vivi aqui. Não acredito. Não acredito em Vicente. Como pôde? Saudade de Vicente. Homem bonito. A janela. Entreaberta, claro. Sempre entreaberta. Por causa do pó. Viveu no pó. Viveu na sujeira. Viveu na Raquel. Que fugiu. Fugiu do rosa baço. Fugiu exalando rosa. Rosa doce. Cadê Raquel? Raquel nada levou. Não levou quadro. A mesa está posta. Como se Vicente chegasse. Saudade de Vicente. Mesmo na sujeira. A cadeira. A cadeira que me cabe. Eu coube ali. Sentei ali. Segurei Vicente. A mão de Vicente. Na cama que Raquel deixou. Deixou febril. Febre de dor. Febre de amor. Saudade. Saudade de Vicente. Vicente que Raquel deixou. Deixou sem levar nada. Raquel deixou Vicente. Com um tiro no peito. Mas foi Vicente. Não Raquel. Raquel não. Raquel fugiu. Com medo. Raquel deixou o quadro. Raquel deixou o perfume. Mas a cadeira ficou. Ficou no seu lugar. Lugar de segurar na mão. A mão de Vicente. Fria. Morta. Mão de pintor. O casaco e o chapéu. Na cabeceira da cama. Ao alcance da mão. Mão de pintor. Mão morta. Mão fria, do quadro que Vicente não pintou. Do quadro que Raquel não levou. Raquel fugiu. Com medo. Nada levou. Raquel deixou saudade. Deixou perfume doce. Perfume rosa. Perfume rosa cinza. Como a luz rosa baça. Baça da janela suja. Sujeira impregnada. Grudenta de pobreza. Da pobreza de Vicente. Da tinta de Vicente. Que pintava rosa. Nunca pintou Raquel. Raquel que fugiu. Deixou Vicente. Vicente nunca abriu sua janela. Janela suja. Suja como a puta. Raquel que fugiu. Fugiu sem levar nenhum quadro. Deixou Vicente verde. De lado. Escondendo a ferida. O talho grotesco. Que rasgou a orelha. Raquel fugiu de Vicente. Deixou saudade. Levou a orelha.

Deixou tristeza.

Tristeza durará para sempre.



coisas que acontecem por aí sempre acontecem com Felipe Tazzo | 1 misericordioso comentário