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Medo da descida

Quarta, 10 de Setembro de 2008

Semana sim, semana não, mudo minha rotina e emendo trabalho com estudos, esgotando todas as horas úteis do meu dia. Na volta para casa, desço do metrô perto da meia noite e às vezes encontro a rua cheia de estudantes, outras nem tanto.
Numa segunda-feira destas semanas, há cerca de um mês, seguia sem prestar atenção meu caminho de sempre, quando a moça da minha frente reduziu a velocidade de seus passos até emparelhar comigo.

- Olá. Você vai descer essa rua até o final? - me perguntou com um certo sotaque.
- Até pouco depois do hospital. No semáforo.
- Posso descer com você?

Com a resposta afirmativa, nos fizemos companhia por alguns quarteirões. Nesse trecho, soube que era peruana e que – ao contrário de mim - achava o bairro muito, muito perigoso e sempre pedia para seu pai buscá-la no metrô. Mas naquele dia, ele não pudera ir.

***

Duas segundas-feiras depois:
- Olá. Você vai descer essa rua até o final?
- Vou. Quer descer comigo?
- Sim. Estou com medo... Acho que dois caras estavam me seguindo e parei aqui nessa lanchonete. Esse bairro é muito perigoso... – tinha lágrimas nos olhos.
- Acho que já nos encontramos. Você é peruana, né?
- Sou sim. Como você lembra?

***

Na outra:
- Olá, lembra de mim? Já descemos juntas.
- Claro. E vamos de novo...
- Você não sabe, menina, meu ex é um canalha.
- Ah... é...?
- É, queria me levar pra cama e só. Terminei tudo com ele. E hoje ele me ligou para me atormentar... Estava no motel com outra.
Quando me dei por mim, lá estava ela chorando. Não sabia o que dizer, mas nem precisei retomar a conversa:
- E tem também um cara que gosta de mim, que me ligou hoje. Eu quase dei um fora nele. Mas acho que vou dar uma chance...
- É, às vezes a gente não dá valor a quem merece...

E, numa fração de segundo, eu tinha virado filósofa.

***

Mais uma segunda-feira. Saí da estação falando no celular e, antes mesmo de desligar, percebo a moça do meu lado. Caminhando, sorri e acena com a mão.
- Era o namorado?
- Sim. – respondo.
- Que delícia! É bom, né?
E, na maior naturalidade, engatou:
- Você lembra do meu namorado cachorro?
- E do moço bonzinho que você ia dar uma chance...
- Pois é, botei todos eles para correr. Agora, tem um cara do meu trabalho que está gamado em mim. Saimos ontem. Acabou de me mandar uma mensagem, olha. Ele é educado, bonito, pagou minha conta ontem. Perfeito!
- Olha, que bom!
- Só que tem um problema... Ele é garoto de programa.
- !!!
E se pôs a chorar novamente. Silêncio.
- Você acha que devo continuar saindo com ele?
- Ah... precisa ver se isso não vai te fazer sofrer.
Mais silêncio.
- Bem, chegamos. Cada uma vai para um lado, né? Qualquer dia te conto como essa história continuou. Nesse mesmo horário, a gente vai se cruzando...

***

História de filme. De novela... Sei lá. Ou de Morfina. Do Pé de Feijão.
Hoje era terça e também voltava da aula, pelo mesmo caminho, no mesmo horário. A moça estava lá, com seu sotaque e suas lágrimas nos olhos. Conversava com um casal próximo à banca de cachorro quente e não me viu.
Podia ter chamado, convidado para descer a rua, mas não o fiz. Não era a minha segunda. Quem sabe daqui uns 15 dias?



datilografado por: Paula R. | revisado por 7