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Da inutilidade dos brindes que vêm nos sucrilhos

Quarta, 17 de Setembro de 2008

Foi-se o tempo em que as embalagens de sucrilhos – ou cereal matinal, tomando a lembrança das grandes marcas que viraram sinônimo de produto, como Gillette, Xerox, Bombril e até mesmo Tênis, que já foi marca da Alpargatas – coloridas e cheias de informação, traziam em seu verso jogos ou brinquedos educativos para serem montados, dando asas à imaginação das crianças e contribuindo para o seu bom desenvolvimento motor e tantas outras finalidades tão importantes que hoje me fogem à memória.

Eu mesmo lembro-me de montar um carro de fórmula 1 com cola e tesoura. Ficou um espetáculo, você precisava ver...

Hoje, esses brinquedos cheios de tecnologia e plástico, que de nada servem além de diversão boba, são oferecidos como brindes dentro da embalagem, já prontos e montados, para que a criança não tenha o trabalho de pensar antes de brincar com o objeto.

Provo o quanto são dispensáveis e perigosos esses brindes, mostrando o acontecido em uma escolinha do interior de São Paulo chamada Mundo Pequenino.

Seguem aqui as cartas enviadas pela professora Glória, da segunda série, durante uma semana que seria comum:

Dia 1: “Queridas mamães e papais, queiram providenciar embalagens de cereal matinal (sucrilhos, granola, etc.) vazias para atividade em classe com cola e tesoura para a próxima aula.”

Dia 2: “Gostaria de agradecer às mães que enviaram as embalagens de cereal mesmo cheias. Tivemos uma tarde muito gostosa, mas peço que instruam seus filhos a ter mais cuidado com os brindes que seguem nas embalagens, como o lança disco do Batman, que acidentalmente acertou uma coleguinha que ficou bastante chateada com o amiguinho.”

Dia 3: “Senhores pais, já foi pedido uma vez e espero não precisar repetir. Os brindes das embalagens de cereal devem ficar em casa. Já começaram as brigas por coleções e eventuais guerrinhas de disco, que já causaram seus primeiros acidentes.”

Dia 4: “Aos responsáveis: É expressamente proibida a entrada dos alunos nesta escola portando brindes de cereal. Ontem tivemos uma verdadeira revolução armada, o pequeno Carlos propositalmente atingiu o nariz da Júlia que, num acesso de raiva vingou-se jogando todos os brindes que pôde pegar para fora da janela, o que levou metade dos alunos a pular sobre a garota e outra metade a pular pela janela, interrompendo a aula e ferindo alguns deles. Por sorte estamos no andar térreo. Em minha tentativa de retirar os discos, levei uma ‘discada’ no olho direito e uma mordida no tornozelo. Os alunos se arrastavam para recolher os discos e seus respectivos lançadores pelo chão da classe enquanto a guerra continuava. Este é o motivo pelo qual seus filhos podem estar feridos hoje. Peço que acatem meu pedido urgentemente, pois basta de violência e derramamento de sangue neste estabelecimento. Enquanto escrevo este bilhete aos senhores, posso ouvir os gritos vindo do pátio, já mostrando que o terror se espalhou pela escola toda. Agora mesmo vejo Júlio se aproximando com um disc...”

Dia 5: “Olá papais e mamães, a partir de agora os alunos serão revistados na entrada da escola por questões de segurança. Gostaria de avisar também que a Tia Glória está de licença este ano por questões de saúde. Grata, Tia Inês (diretora).”
 



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