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Crometofobia

Quarta, 1 de Outubro de 2008

No início éramos livres.

Cada um na sua, vivendo num tal estado de natureza que, aparentemente, nos satisfazia.

Cada um tinha o que lhe cabia. Nunca era pouco, pois o limite era o máximo do usufruto. Tínhamos tudo o que precisávamos ter e o quanto conseguíssemos consumir.

Produzíamos e plantávamos o suficiente e sempre trocávamos com nosso vizinho o que sobrava em casa.

Até que um estrangeiro chegou com umas pedrinhas brilhantes, dizendo que elas tinham valor, eram raras e podiam ser trocadas por tudo o que quiséssemos.

No começo foi difícil entender por que um pedaço de metal valia tanto. Mas fomos nos acostumando com isso também.

E alguns perceberam que produzir mais era sinônimo de mais pedrinhas. Começaram a estocar produção e moeda. Algumas coisas estragavam, mas o que realmente valia era o tal metal precioso.

E daí para a frente a gente já conhece a história, os valores se inverteram e as pedrinhas viraram papel. E hoje todo mundo acredita cegamente que este papel vale mais que qualquer outra coisa deste mundo.

Mais que saúde, mais que liberdade, mais que a própria Terra ou a vida dos nossos seus vizinhos.

E, de tanto adorarmos o que nem tinha exisita há alguns séculos, o medo do escuro de outrora deu lugar ao medo de perder o tal papel, o que significa a morte para muitos, pois nos ligamos tanto a essa invenção estrangeira, que não é mais possível pensar em viver livre dela.

Até que, quem sabe um dia, cansados de sermos escravizados e atacados pela crença nas tais pedrinhas, abriremos mão delas, voltaremos a ser livres in natura e humanos de novo. Ou não... Às vezes, chegando perto do fim, fica difícil escolher entre Hobbes e Rousseau.
 



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