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Boemia - o musical

Segunda, 16 de Junho de 2008

Adoniran Fidel, homem correto e direito, justo e honesto tinha um amor em cada bairro. Andava tropeçando de bêbado pelos cantos e, dependendo de que butiquim se encontrava, rumava para a casa da namorada mais próxima com o cavaco sob a axila e se aboletava em sua cama, babando palavras doces até dormir alcoolizado.

Maria Rosa, meu amor, por ti largo a boemia.
Vou para a igreja, acordo cedo, faço feira e lambo a cria
Arrumo emprego certo e largo o samba
Deixo para lá os amigos do carteado
As mulheres, também todas eu esqueço
E os cigarros, eu juro, este é meu último maço
Depois desse trago, Maria meu amor, largo tudo e te mereço.

Maria Rosa, que era apaixonada e se deixava levar por qualquer lambada, calava e ouvia, suspirava na janela quando seu amado a deixava com a ressaca, subindo o morro no começo do dia, lembrando da cantoria ao pé do ouvido, só ele e o cavaquinho.

Mas, Adoniram nunca retornava. Pelo menos não em bom estado. Voltava tropeçando, cheirando a cachaça, já de saída marcada para cedo, assim que acordasse, que de cedo não tinha nada.

Adoniran Fidel, meu amor, você veio para ficar?
Dessa vez te amarro ao pé da cama
E você prova que me ama.
Pode esquecer o carteado, o butiquim, o samba
O frevo, o maxixe, o baião e o xaxado.
Por que desta feita, você só sai limpo, banhado
Empregado, benzido e barbeado.

Adoniram Fidel, sujeito esperto e calejado, malandro que só ele, direito mas nem tanto, sentiu que o cerco estava apertando. Deu de banda de manhã, mal abrindo os olhos. Escorregou das cobertas sorrateiro, se esgueirou pelo corredor pé ante pé, mas foi pego na soleira da porta, traído pelo rangido da dobradiça velha, casaco no ombro, chapéu na cabeça, cavaco numa mão e os sapatos na outra.

Maria Rosa, meu amor, veja bem, não é bem assim
                      - Então se não for, me explica, tin-tin por tin-tin
Maria Rosa, você bem sabe que é tudo para mim
                      - Se eu sou tudo então não tem nada para você no butiquim
Mas Maria Rosa, amoreco, é lá que estão meus companheiros
                      - Pois você que trate de esquecê-los
Justo hoje, Maria Rosa, que a roda clama por meu cavaquinho?
                     - Hoje e agora, exijo prova de amor e de carinho.

Sem escolha, Adoniram Fidel, sujeito covarde e conciliador, daqueles que não sai de cima do muro e não se indispõe com ninguém, contemporizou. Sentou-se com as mãos na cabeça por um momento, ergueu os olhos lacrimados para seu amor e, sabendo que seus dias de boemia terminariam ali naquele momento, alçou a mão para o bolso do paletó, de onde tirou uma corda fina de cavaquinho.

Com a corda mi do meu cavaquinho
Faço um anel; um compromisso firme
De todo o meu amor e carinho.
Quisera eu me esbaldar na boemia entre meu pessoal
Mas entrego a ti o meu destino.
Parto em busca de uma ocupação profissional
Ciente que com rodas e serenatas eu desafino.

Tomada de emoção com as palavras de Adoniram, Maria Rosa aceitou o anel que escorreu pelo seu dedo anular da mão esquerda. Com os olhos úmidos ela viu seu agora noivo dobrar a esquina à busca de um futuro para os dois.

Meu nego deixou meu barraco
Foi achar pra si um patrão
Foi achar um nome, um cargo
Se tornar um homem, foi ter profissão
Ele vai voltar perfumado
Pronto para a gente se casar
Vai voltar pros meus braços, com flores e doces e registro assinado

Deslumbrada, novamente na janela, ouvindo pássaros e encantada com a beleza do mundo, Maria Rosa provou que alegria de pobre dura mesmo pouco arremessando longe o pretenso anel. Adoniram Fidel, porco, vagabundo, sem vergonha e picareta já havia lhe explicado que cavaquinho se afina com ré, sol, si e ré novamente. Não possui corda mi.
 



coisas que acontecem por aí sempre acontecem com Felipe Tazzo | Um comentário por misericórida!