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As aventuras de Wagner, o ciborgue brasileiro

Quinta, 25 de Setembro de 2008

 Se estiver participando de uma gincana e precisar de alguém que tenha entre 20 e 30 anos e conheça um ciborgue genuinamente brasileiro não me procure. Pois se tem coisa que não suporto, além de picles, é gincana.

O fato é que conheci Wagner ainda no primeiro ano do ginásio. Ele sempre foi um bom aluno, e chamava a atenção por ser o único da primeira série que consegue extrair raiz quadrada na potência três e apontar os lápis de cor sem precisar de apontador. Ele recolhia o olho esquerdo, e enviava a ponta do lápis, dava um segundo e pronto, era só escrever e/ou pintar com o grafite pra lá de pontiagudo. Mais fino que lapiseira 0.5. Um luxo. Só dava gente quebrando ponta de lápis e pedido para o Wagner apontar.

Tentei agenciar ele, aconselhando que cobrasse uma módica quantia para cada apontamento. Eu organizaria os clientes, e ficaria com 50% de tudo. Mas o danado tinha um bom coração, além de uma boa biela, e não topou a sociedade.

Isso fortaleceu nossa amizade. Pois todos viam-no como uma atração de circo, ou de ferro-velho, ou até da Infotec, mas eu não. Eu o via como uma boa fonte de lucros. Claro que ele não sabia disso, nem poderia. E só confesso isso porque Wagner foi desativado e vendido por peso a um ferro-velho (juro que não fui eu quem vendeu o cambaleante ciborgue).

Não deixou herdeiros, tampouco familiares. Depois de ser vilipendiado por Isabela no segundo ano de mecatrônica, começou a beber e perdeu tudo o que lhe havia de valor, em mulheres e jogatina. Foi encontrado sem vida dentro de uma banheira em um quarto de hotel de quinta categoria nas redondezas da antiga rodoviária da cidade. O pessoal da eletrônica que ofereceu os primeiros socorros, disse que ele se suicidou, quando fez uma ligação direta embaixo d'água. Ao lado da banheira seus últimos valores: duas velas meia vida e um tubo de óleo Singer.

Só fiquei sabendo da tragédia hoje pela manhã. Quando recebi um CD-rom com toda a sua memória, já corroída pela bebida, drogas e ácido de bateria na qual era viciado. Nem à reciclagem pude ir. Eu, que sempre estive ao lado desta criatura maravilhosa, me sinto compelido a contar, aqui, pitorescas e alegres passagens deste grande amigo.

 



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