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A vida de Torres – Parte VII

Terça, 23 de Setembro de 2008

Somente após receber o primeiro empurrão nas costas e sentir seus pés perderem-se do chão, Torres se deu conta do que estava fazendo. Segurando duas correntes de ferro e com todo seu peso sustentado por uma pequena prancha azul de madeira, Torres balançava.

Subia alto com vigor, desafiando a gravidade inerente a este ato. E, quando descia, era amparado por um par de mãos macias que lhe escorava e, em seguida, lhe devolvia para cima.

A euforia dos primeiros vôos, porém, logo deu lugar ao receio. Torres recobrou a razão e concluiu que não tinha idade para estar ali. Poderia quebrar o brinquedo que ele mesmo havia proporcionado às crianças e, inclusive, machucar alguém, caso viesse a se esborrachar.

Subitamente, chegou a ouvir um estranho rangido nas engrenagens da balancinha. Torres falou para o garoto interromper a brincadeira, mas foi prontamente ignorado. Cada vez que descia, era recebido com uma gargalhada, seguida de novo impulso.

Lá do alto, pôde ver algumas pessoas observando sua atitude. Diversas crianças e alguns adultos acompanhavam, com atenção, aquela estripulia. Entretanto, ao contrário do que previa, Torres reparou que todos estavam sorrindo e alguns até acenavam para ele. Reconheceu Vevéio entre os espectadores e retribuiu o sorriso simpático que lhe foi dirigido.

Permaneceu por lá mais alguns minutos, oscilando entre a razão e a emoção. Ora emergia feliz, como uma criança inconseqüente; ora descia assustado, como homem responsável. Até que, exausto de tanto brincar, o garoto simplesmente lhe segurou e elogiou a brincadeira.

Uma porção de gente cercou Torres para conversar, fato que lhe estimulou a timidez. Ele sorriu acanhado para todos que vieram lhe cumprimentar, mas conversou apenas com Vevéio.

- Tive de vir testar o brinquedo que as crianças estão usando. A balancinha é boa mesmo. – arriscou Torres.

- Muito boa. Eu também já tinha feito esse teste. Só não tive um ajudante tão bom para brincar comigo. – respondeu Vevéio, sorrindo agora para o garoto que dava os impulsos.

Ainda sem jeito, Torres despediu-se de todos com um simples meneio. Agradeceu ao garotinho pela companhia e deu alguns passos em direção ao carro. Antes de entrar, decidiu dar uma volta por toda a praça para completar aquele momento de recreação.

Franziu ligeiramente a testa, produzindo um semblante de falsa seriedade, muito parecido ao que os políticos fazem durante as vistorias de obras de engenharia. Circulou quase toda a praça com essa fisionomia e só no final da volta deixou escapar um sorriso, quando praticamente foi atropelado por uma criança que dirigia sua motoquinha infantil.

A mãe do garoto apressou-se em pedir desculpas, deixando Torres completamente desconcertado. A moça tinha uma beleza singela e congênita, incomum nos tempos de hoje. Os cabelos castanhos, compridos e ondulados; lábios bem delineados; pele branca; e olhos cor de mel, que se movimentavam instintivamente no ritmo dos eventos que ocorriam ao redor.

Aparentava uns 35 anos e tinha um jeito tão espontâneo e acelerado que chegava a ficar um pouco desengonçada. Enquanto gesticulava para Torres pedindo desculpas e falando sobre a loucura de criar filhos, com a outra mão tentava segurar o menino, que já pedalava na direção oposta.

Torres elogiou a beleza da criança, o que não o forçou a mentir, pois ele era muito semelhante à mãe, até mesmo na maneira um tanto espalhafatosa de dirigir seu triciclo.

Ainda completando suas desculpas, a moça virou o pescoço em direção a Torres e despediu-se.

- Tchau, tenha um bom dia. Eu vou correr antes que ele atropele mais alguém. – disse, sorrindo.

- Tchau, até amanhã... – balbuciou Torres, sem saber se ela havia escutado seu último comentário, mas estabelecendo um compromisso com ele mesmo de voltar àquele local na manhã seguinte.

Caminhou até o carro. O suposto cheiro de mar voltou a encher suas narinas. Ele apreciou aquele palco de transformação que foi suas últimas horas. Parecia estar sonhando. Um sonho que sempre sonhou sonhar. Uma espécie de letargia às avessas.

Entrou no carro radiante. Sentiu-se potente. Virou a chave de ignição ainda sem saber para que lado iria acelerar, quando seu celular tocou. Era o chefe.
 

Na próxima coluna: A vida de Torres - Parte VIII



vem que é bão com a Rogéria | uma dose