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A vida de Torres – Parte VI

Terça, 9 de Setembro de 2008

A grama úmida brilhava intensamente ao entregar-se à chegada da manhã. Aos poucos, o frio gélido da madrugada perdia resistência, deixando-se superar por um calor inopiado que ardia em determinação.

Estacionado na área externa da casa, seu carro estava coberto por uma camada branca como neve que, de tão espessa, parecia uma capa. Era o orvalho segurando milhares de flores brancas, caídas durante a noite do alto de uma Pitangueira, que pressentia a aproximação da primavera.

Torres contemplou aquele cenário com entusiasmo. Estava disposto e com os sentidos aflorados. Respirou fundo e aflou o máximo de ar que seus pulmões aceitaram, notando que o vento trazia um cheiro que ele conhecia bem, porém, muito incomum àquela região.

Era um perfume doce, salgado a gosto por algum perito em aromas. Uma fragrância forte e acre, mas que não o incomodava. Para Torres, aquele era o odor do suor dos deuses; um cheiro de vida e de perpetuação. O vento lhe trazia o inconfundível cheiro de mar.

Como podia aquele cheiro ter atravessado centenas de quilômetros para lhe presentear naquela manhã? Essa era mais uma pergunta das muitas que Torres não encontrava respostas naquelas últimas horas. No entanto, não se importou.

Continuou aproveitando aquela fragrância, com um semblante que, provavelmente, nem ele reconheceria no espelho. Um sorriso espontâneo lhe escapava do rosto e todos os seus poros pareciam acompanhar as ordens que o cérebro ditava ao maxilar.

Enquanto abria o portão, Torres viu um cachorro espreguiçando ao sair debaixo de um automóvel estacionado na rua. O cão, ainda com cara de sono, andou alguns poucos passos e tornou a deitar, mas, dessa feita, no meio da rua, num lugar onde o sol parecia ainda mais intenso.

Quando Torres passou com o veículo foi obrigado a desviar do bicho que continuava por lá sem se importar com nada que acontecia à sua volta. De dentro do carro, Torres parou ao lado do cão e abriu o vidro para olhá-lo melhor. Chegou, inclusive, a pronunciar algumas palavras ao animal que, se as compreendeu, assim, não demonstrou.

Torres sorriu e antes de fechar o vidro para seguir caminho fez um último comentário ao cão: “você é que é feliz!”, disse. O cachorro novamente pareceu não ouvi-lo, ao contrário do vizinho.

- Agora, ele só vai sair daí quando tiver com o corpo todo quentinho. – disse um senhor de uns 80 anos e que Torres já havia visto algumas vezes na padaria, sem nunca ter conversado. Aparentava ser uma pessoa muito simples, dessas que de tão ignorantes parecem não perceber a dureza da vida. Usava calças furadas, camisas faltando botões e chinelo de dedo. Seu cabelo estava despenteado e lhe faltava um dente. Os outros, porém, pareciam não querer deixar ele sentir falta do que perdera e permaneceram à mostra por todo tempo, até Torres conseguir pronunciar sua primeira frase a alguém da vizinhança.

- Bom dia. Não sabia que éramos vizinhos.

- Bom dia doutor João! Moro aqui há um bom tempo, mas a vida acaba por isolar até mesmo pais e filhos. Vizinhos então... – respondeu ele, surpreendendo Torres não só por saber o seu nome, mas pela análise resignada sobre a vida e, sobretudo, por continuar sorrindo.

- É verdade, passo sempre com pressa. Mas, desculpe, não sei o seu nome.

- Meu nome é Otacílio, mas todo mundo aqui da região me conhece como Vevéio, que é como eu prefiro.

- Ta certo. E como você já sabia o meu nome? – questionou Torres, mais por curiosidade do que por desconfiança.

- Todo mundo lhe conhece por aqui doutor João. Apesar do senhor ser meio caladão, é muito querido nessas redondezas. A ajuda que o senhor dá para a associação do bairro é o que vem mantendo a nossa praça.

Torres demorou alguns segundos para entender de que se tratava essa tal ajuda à associação. Depois lembrou que depositava todos os meses uma quantia na conta do seu Tobias, o morador mais antigo do bairro.

Fazia isso sem nenhuma convicção de que estava ajudando a harmonizar o bairro que morava, mas simplesmente para não ter de ouvir, por uma segunda vez, a conversa chata do Tobias sobre a importância de colaborar.

Outro ponto positivo era o de que, ao depositar esse dinheiro, estava livre de ser interpelado pelo vigia noturno que circulava na região.

- Sim, a associação. Como vão as coisas por lá? – perguntou Torres.

- Olha doutor, a sede ainda está ruim, com muitas goteiras inclusive. Mas a praça ta cada vez melhor. Você viu a placa que colocamos em sua homenagem na balancinha?

- Não.

- O Tobias falou que ia te ligar para contar...

- Pode ser que ele tenha ligado e eu não tenha ouvido. – advertiu Torres, ciente de que não atendia às ligações dele há um bom tempo.

- Pois a balancinha ta lá e as crianças adoraram. E ela só pôde ser comprada graças ao dinheiro da sua colaboração.

- Fico muito feliz em saber. Vou passar lá para ver. E no mês que vem vou ajudar na reforma da sede.

- O senhor é um homem bão. Deus não deixa faltar nada pra quem ajuda, não é mesmo?

- É? É, é... Agora, infelizmente eu tenho de ir, que já estou atrasado.

- Vá em paz doutor João. Tenha um bom dia!

- Pode me chamar somente de João. Bom dia pra você também!

Torres saiu satisfeito. Era querido por uma porção de gente que ele nem conhecia. E as crianças balançavam num brinquedo que ele havia possibilitado estar lá.

Decidiu mudar um pouco o caminho e passar pela praça. Estacionou o carro na lateral e viu algumas mães passeando com seus filhos, num calçadão bastante limpo, margeado por diversas espécies de flores coloridas.

Saiu do carro e caminhou até o local onde estava a balancinha. Um garoto empurrava o outro, que sorria a cada impulso maior que recebia. Ao lado do brinquedo, uma placa prateada e metálica estava fixada numa coluna de tijolos, com a seguinte inscrição: “Brinquedo doado à Associação dos Moradores pelo senhor João Torres em 07/03/08”. Já fazia pouco mais de seis meses que ele ajudara a alegrar aquelas crianças. Torres encheu-se de contentamento.

A criança que estava balançando pareceu perceber a sua alegria e aproximou-se repentinamente.

- Oi tio, quer brincar com a gente?

Um pouco sem jeito, Torres olhou para a balancinha e viu que o outro menino ainda estava na parte de trás, pronto para dar novo impulso a quem sentasse por ali.

Sim, ele queria brincar.

Na próxima coluna: A vida de Torres - Parte VII

 



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