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A vida de Torres – Parte V

Terça, 26 de Agosto de 2008

Com as duas mãos abertas, Torres esfregou os olhos com força. Tinha esperança de reabri-los e concluir que tudo não passou de uma ilusão.

Aproximou-se da cama e tornou a olhar para o vulto que se mantinha impassível, recostado ao travesseiro. Não havia dúvidas, era ele mesmo quem estava ali estendido.

Suas pernas tremeram. De todas as sensações de medo que experimentara ao longo da vida, a que mais lhe assustava era a de perder a razão e enlouquecer.

Acostumado a racionalizar todas as questões antes de agir, Torres jamais admitia a possibilidade dessa habilidade ter papel secundário. Para ele, todas as atitudes humanas deveriam seguir uma linha essencialmente racional. Entretanto, agora, sua estratégia estava em xeque, pois não encontrava argumentos para explicar o que estava acontecendo.

Seus joelhos fraquejaram e o coração disparou. Ainda não era uma pessoa velha e já estava tendo alucinações. Como poderia ser possível permanecer, ele, em dois lugares ao mesmo tempo? Cogitou estar ficando louco.

Ou talvez estivesse morrendo e essa experiência fizesse parte do processo de morte. Torres já havia pensado muito sobre a morte e sabia como gostaria de agir quando estivesse na iminência dela. Lembrou da carta que havia escrito ao irmão há alguns anos e que, ainda, pretendia entregar. Tentou avaliar quanto tempo lhe restava e quais seriam seus próximos atos.

Suas pernas não suportaram o peso de mais esse esforço racional. Torres tombou na cama e viu-se lado a lado com ele mesmo. Um deles enlouquecendo; o outro, aparentemente dormindo, ou já morto.

Pensou em chacoalhar o corpo para ver qual seria a reação, porém, deteve-se. Em frangalhos e entregando-se à loucura, deu início a uma brincadeira que costumava fazer na infância. Passou a olhar fixamente para aquela figura desacordada, como quem tenta compreendê-la.

Durante a infância, observar o sono alheio era uma ocupação bastante corriqueira a ele. Achava interessante espiar as feições de quem dormia, tentando imaginar com quem a pessoa poderia estar compartilhando aqueles momentos ou o que ela estaria fazendo.

Praticava essa espécie de voyeurismo desde bem pequeno. Houve tempos em que, todos os fins de semana, Torres aguardava o pai enfastiar-se com algum programa televisivo, somente para vê-lo dormir no sofá.

Aquele senhor sisudo, de poucas palavras e riso improvável, reservava para o sonho suas descontrações. Sua face relaxava e as linhas de expressão chegavam a desaparecer por alguns instantes. Naqueles minutos de inconsciência, Torres sentia-se mais próximo do seu progenitor.

O ronco do irmão também lhe trazia boas sensações. Por muitos anos, a diferença de idade entre eles reduzira as chances de comunicação. Mesmo no quarto que dividiam, costumavam trocar apenas um rápido e respeitoso voto de boa noite. Até a reza de ambos era silenciosa.

Somente quando o irmão se punha a roncar e a falar frases desconexas surgia uma oportunidade de interação. Torres ria e se deleitava ao expor seus pontos de vista sobre os mais diversos assuntos levantados pelo irmão durante o sono.

Outra lembrança era a da época em que a mãe ficou doente e precisou ser internada. Torres tinha apenas 15 anos e, mesmo assim, foi ele quem mais a acompanhou naqueles dias.

Da cadeira ao lado da cama do hospital, ele a viu correr descalça em campos floridos, nadar em riachos não poluídos, brincar de pega-pega nas ruas de terra e mostrar uma vivacidade que ele só conheceu por histórias contadas pelos familiares mais velhos.

Bastaram poucos segundos de observação para Torres perceber que não havia ninguém morto ao seu lado, mas sim dormindo profundamente. Tentou imaginar com o que ele próprio estaria sonhando.

Deitou ainda mais perto e viu que sua respiração estava tranqüila. Isso o acalmou. A sensação que, momentos antes, fora perturbadora dera lugar a auspiciosos estímulos. Repentinamente, Torres se encheu de um otimismo nunca antes conhecido.

A mudança abriu espaço para sua imaginação criar situações agradáveis. Nesse inesperado êxtase, os dois corpos se confundiram na cama. Torres aquietou-se por ali um bom tempo até que, finalmente, levantou e, sem apressar-se, saiu para ir ao trabalho.

Na próxima coluna – A vida de Torres parte VI
 



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