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A vida de Torres – Parte IV

Terça, 12 de Agosto de 2008

Tão logo deixou o quarto de hóspedes, um feixe de luz atingiu em cheio seus olhos. As janelas e as cortinas da sala estavam bem fechadas, como ele mesmo havia arrumado há alguns dias. Porém, uma pequena fresta, localizada na parte superior da parede, abrira passagem para o raio que lhe golpeava a vista sem dar chance de esquivar-se.

Torres fechou os olhos e tornou a abri-los. Nesse breve piscar, toda a casa pareceu ganhar formas diferentes das que ele estava habituado, revelando uma agradável surpresa.

Aquele filete de claridade se multiplicara dentro do ambiente, escancarando uma paisagem que há anos parecia não existir. Objetos ganharam vida ao realçarem suas cores, seus desenhos e toda história que continham.

Primeiramente, Torres observou o alto de uma estante, onde dezenas de livros repousavam, parecendo hibernar. Em seguida, notou, na prateleira ao lado, a presença de um vaso de porcelana, que abrigava as mesmas flores plásticas recebidas num distante presente de aniversário.

Seguiu olhando à sua volta. Quadros de figuras abstratas, que diziam muito sobre importantes etapas da sua existência, estavam um pouco desalinhados nas paredes, mas permaneciam emoldurados e envidraçados com esmero, embalsamando momentos que traziam lembranças nostálgicas.

Alguns porta-retratos de familiares falecidos e outros de pessoas que ele não via há meses, nem mesmo naquela sala, também continuavam por ali. Torres viu, ainda, o brilho reluzente de um troféu conquistado numa olimpíada de matemática, em época de boas recordações.

Tudo isso lhe comoveu. Sem segurar a emoção, baixou os olhos vermelhos até a parte inferior da estante, onde finalmente viu o que nunca deixava de avistar: lá estavam sua pasta retangular de couro, sua carteira, o pente de osso e um molho de chaves. Imediatamente, voltou-se para o relógio. Estava atrasado.

Entretanto, antes de apressar-se, como seria o comum, tornou a olhar para a fresta da parede, por onde passara aquela iluminação natural.

Torres admirou o poder da luz em conseguir demarcar espaço com tanta naturalidade. Ela simplesmente se fazia presente. Era assim e pronto, sem gerar questionamentos. Mas, claro, - pensou ele - ela é fundamental para a vida humana, então nada mais egoísta do que recebê-la com desprendimento.

Torres admirou ainda mais aquele raio altruísta. Qualquer um que consiga fixar ocupação sem incomodar já seria, por si só, um vencedor. E a luz solar ainda trazia benefícios para quem a acolhia. Por isso, era, sem dúvida nenhuma, digna do seu elogio.

E ele, Torres? Seria ele importante para alguém? Provavelmente sim, para alguns familiares. Para pouquíssimos amigos, também. Para o seu chefe, com certeza. Torres lembrou que estava atrasado e apressou o passo até o seu quarto, de onde havia saído, sem se dar conta, em algum instante daquela noite.

Ao entrar, notou que, por lá, o dia ainda não havia amanhecido. Tudo estava escuro e ele teve a leve impressão de que alguém estava deitado em seu lugar. A coberta parecia erguida, aquecendo algum corpo na parte debaixo.

Apertou o interruptor para poder ver melhor. A lâmpada produziu, instantaneamente, um efeito inverso ao que havia sido gerado, na sala, pela luz do sol. A claridade se fez da mesma maneira, porém, nada lhe pareceu mais perturbador e desagradável do que enxergar a si mesmo acomodado naquela cama.
 

Na próxima coluna: A Vida de Torres - Parte V



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