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A vida de Torres – Parte IIITerça, 29 de Julho de 2008Torres se achava muito feio e, desde a infância, isso o incomodava. Ele não tinha um grande defeito físico ou traços muito acentuados que justificassem sua autocrítica exagerada; ao contrário. Exceto pela melancolia que, involuntariamente, exalava pelos olhos, sua aparência era harmônica. Tinha cabelos lisos, barba leve e clara, lábios expressivos e um nariz ligeiramente empinado, que o ajudava a esconder do mundo qualquer sinal de fraqueza, contrapondo, com eficiência, o certo derrotismo do seu olhar. Mesmo assim, se achava feio. Pior que isso; considerava-se desigual. Para ele, os aspectos lançados pelo espelho eram muito diferentes dos demais que andavam pelas ruas; que conversavam nos restaurantes; que estampavam as revistas; ou que riam e gesticulavam pelos bares. Até mesmo no trabalho, as pessoas não lhe pareciam semelhantes. Ele não conseguia definir, precisamente, em quais pontos estavam suas diferenças com os outros. Talvez estivessem nos olhos mesmo e na boca. Ou na testa e nas orelhas. Ou no pescoço, nos braços e nas pernas. Onde? Provavelmente, em tudo. Torres fazia essas perguntas numa constante tentativa de fuga. Encontrava nesses questionamentos uma maneira de isentar sua responsabilidade pelas dificuldades que tinha de adaptação e sociabilização. Era uma saída de emergência utilizada sempre que o medo de aprofundar seu autoconhecimento o impedia de ir além. Mas naquela noite, no quarto de hóspedes da sua casa, defronte ao computador, num momento único, experimentara o doce sabor da coragem. Ao menos por um átimo, ao encarar aquela máquina, pôde conhecer a deliciosa sensação de superar o que lhe parecia programado a cumprir. Por mais rápidos que tenham sido aqueles segundos, foram suficientes para, ao menos, lhe proporcionar uma boa sensação; a qual poderia guardar na memória. Na memória? Torres achou graça de pensar em memória ao encarar aquele equipamento e gostou da idéia de ter uma recordação exclusivamente sua e boa. Suas bochechas continuavam vermelhas. Apesar de não ter fixado atenção naquela parte do corpo, ele pôde observar, de relance, pela tela do computador, que elas estavam ardendo em chamas. Em seguida, encontrou, no reflexo da tela, aquele par de olhos semi-abertos, que o desafiavam para um duelo. Encarou-o por alguns segundos, porém, diante da forte resistência do adversário optou por esquivar-se. Não estava preparado para uma batalha tão desgastante. Não ainda. Havia outras que poderiam se enfrentadas inicialmente para ir se calejando e ganhando tarimba. Inquieto, Torres sacudiu a cabeça com força e desviou o olhar do computador. Sentiu-se um pouco fraco, mas não se abalou, pois percebeu que algo parecia estar mudando naquela guerra. Deixou o quarto de hóspedes sem voltar a olhar para os lados, mas, ao sair, bateu a porta com força. A atitude o ajudou a seguir acertivo em seus propósitos e a, enfim, buscar seu caminho como seu nariz sempre lhe sugeriu. Ergueu a cabeça e afastou-se dali. Na próxima coluna - A vida de Torres parte IV
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