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A vida de Torres - Parte II

Terça, 15 de Julho de 2008

Como Winston Smith, personagem de George Orwell, no livro 1984, Torres sentia-se oprimido e ameaçado dentro da sua própria casa. Especialmente ali, no quarto de hóspedes, que nunca recebera qualquer visita, a impressão que dava era a de que alguém habitava o recinto.

O cenário, por ali, não era pano de fundo e sim protagonista. Para compensar a ausência humana, tudo parecia ter adquirido vida: as paredes, a janela, o lustre, o rodapé e a atmosfera, além, é claro, daquela figura instalada no canto.

A ausência de histórias e de acontecimentos no local produzia um clima denso e sufocante. O ar parecia pressionar as paredes, como um balão que não pára de receber gás em seu interior. Havia uma sensação de aperto lá dentro, apesar do quarto não ser pequeno e de quase não ter mobília.

Sempre que adentrava àquela porta, Torres compreendia estar invadindo um espaço alheio, onde novos proprietários requeriam uso capião.

E daquela vez não foi diferente; sua recepção não foi das melhores. Passou pela porta e o ar ganhou resistência. Torres foi em frente. Dois passos depois, já estava sendo empurrado para fora por um campo de resistência invisível. Ele, porém, fez corpo duro e ganhou a primeira batalha.

Parou próximo à janela e de soslaio olhou para o canto esquerdo do fundo do quarto. Observou o local com receio, lembrando de Winston Smith frente a frente com uma teletela - que filmava sua residência 24 horas por dia.

Torres não tinha uma teletela instalada pelo governo em sua casa, mas a sensação que o microcomputador lhe passava era muito semelhante. Ninguém sabia mais sobre a sua vida do que aquele equipamento.

Talvez soubesse até mais do que ele mesmo, pois diversos momentos que sua memória já havia, sabiamente, tentado apagar continuavam armazenados naqueles bites de recordações indesejadas, que funcionavam como um museu biográfico pronto para despejar um turbilhão de emoções perdidas em seu passado.

Nenhum capítulo apagado. Fotografias antigas, poemas doloridos e cartas que nunca foram enviadas estavam guardados ali e pareciam flutuar por todo aquele cenário frio e nebuloso, invadindo seus pensamentos como uma doença.

Toda a sua fraqueza e seus medos permaneciam presos e aquela máquina lhe incitava ao embate, como um representante do exército convocando cidadãos sem vocação para partirem à guerra.

E não era somente a opressão que o incomodava. O computador também lhe transmitia a impressão de estar exposto, com toda a sua timidez escancarada ao mundo por meio de diversos programas e softwares.

Ao contrário de Wiston Smith, nenhum ditador havia ordenado a instalação daquele aparelho em sua casa. Ele mesmo havia adquirido e colocado ali. Ter um computador era uma medida básica para qualquer pessoa que quisesse fazer parte daquela sociedade, e ficar excluído era uma sensação que já lhe cansava.

Por isso o comprou, a duras prestações. E não se arrependia de tê-lo por perto, mas, ao mesmo tempo, não sabia lidar naturalmente com a sua presença, feito um pai que sucumbe perante aos desafios da criação dos filhos.

Torres sentiu frio. O inverno lhe parecia ainda mais rigoroso naquele cômodo. Mesmo trêmulo, encarou com firmeza o computador pela primeira vez,  e tomou consciência de que afrontava um grande oponente. Cerrou os olhos para enxergá-lo melhor e, no reflexo da tela do monitor, viu uma imagem bastante familiar. Enrubesceu.
 

Na próxima coluna: A vida de Torres - Parte III



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