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A vida de Torres – Parte I

Terça, 1 de Julho de 2008

Torres não era muito de se importar com pesadelos e transtornos noturnos. Por mais recorrentes e perturbadores que fossem, ele simplesmente ignorava-os. Todavia, naquela madrugada de inverno, ele acordou gritando e, num impulso, ergueu da cama seu corpo gelado.

Demorou longos minutos para tentar respirar num compasso suave e, somente então, acreditou ter condições para buscar na memória os fenômenos psíquicos que o levaram àquele sobressalto.

Ninguém, além dele, ouvira aquele grito que dera ao despertar - um berro seco, sofrido e prolongado, que não baixou o tom nem mesmo no final. Ou, caso alguém tivesse escutado, certamente não identificaria de onde poderia ter vindo o som.

Torres morava só e não tinha relações sociais com a vizinhança. A casa mais próxima distava, ao menos, uns 50 metros da sua. Também não havia comércio nas proximidades, o que, nesse caso, não faria diferença se houvesse, pois naquele horário ninguém estaria trabalhando para lhe ouvir gritar.

Ele morava em um bairro novo e periférico, porém, emergente e com possibilidades de valorização. Todos os dias, saía de manhã bem cedo, numa hora em que nenhum morador daquela servidão já estivesse apto a conversar ou, pelo menos, a lhe cumprimentar.

Quando voltava para casa, após o expediente, até avistava uma pessoa ou outra entrando em suas residências, mas a iluminação precária das ruas lhe desestimulava a tentar um aceno ou um meneio.

Enquanto olhava o ponteiro cravar 3 horas no relógio, Torres fez um grande esforço para lembrar ao menos uma imagem que pudesse lhe indicar o que havia sonhado.

Não conseguiu. Tratou, então, de recordar em que tinha pensado à noite antes de dormir. Imediatamente, esqueceu de lembrar do pesadelo. Entendendo estar de volta ao mundo real, lembrou do que gostaria de esquecer.

Há alguns anos, dedicava quase 100% da sua vida ao trabalho. De infância humilde, inteligente e com disposição ímpar, Torres formou-se em administração de empresas e hoje era funcionário de uma multinacional.

Trabalhava no departamento de ações trabalhistas. Dentre suas inúmeras funções, a que mais desempenhava era efetuar o pagamento do depósito recursal – montante que a empresa paga para recorrer de uma decisão judicial, em reclamações trabalhistas.

Mesmo sabendo que a empresa era culpada, na maioria dos casos, era orientado a agir dessa maneira para protelar o pagamento da indenização. Achava injusto, principalmente nos casos em que o ex-funcionário era pobre e precisava do dinheiro para comprar produtos de necessidades básicas; ou muitas vezes, até mesmo, para se alimentar.

Passava cerca de 11 horas por dia num escritório frio, onde toda a mobília parecia observá-lo. Diariamente, dava o sangue na defesa de causas infundadas, em troca de um suborno permissível, que mensalmente era depositado pelo RH em sua conta corrente.

Cumpria satisfatoriamente as funções que dele esperavam, sem parar para pensar no porquê as executava. E após muitos anos de desempenho robótico, quando procurou entender os motivos pelo qual mantinha aquela rotina, concluiu que precisava do salário para dar andamento ao seu projeto de vida. E esse, por sua vez, era, basicamente, o de largar aquele emprego.

Envolto em devaneios, Torres se deu conta de que não estava mais na sua cama. Em algum momento havia levantado e caminhado sem perceber e, agora, estava parado na porta de entrada do quarto de hóspedes, olhando para um espaço praticamente vazio, que não justificaria a sua existência, a não ser por aquela figura no canto que, fleumática, voltava a lhe observar.

Na próxima coluna: A vida de Torres – Parte II



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