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Ponto final...Terça, 2 de Dezembro de 2008O fato é que nunca gostei do ponto final. Reticência, sim, acho uma figura honesta, sedutora e interessante. Interrogações, mesmo com toda sua complexidade, também admiro; bem como exclamações! Mas aquele pontinho metido à besta, parado à direita, na parte de baixo de uma última palavra que, de fato, nunca existirá, me incomoda profundamente. Para mim, o ponto final é uma farsa. Um recurso ilusório, empregado nos momentos em que escrevemos a vida com frases superficiais. Sua presença, na escrita, é tão comodista, que se tornou referência autoritária na linguagem oral. Adorado por arrogantes, sempre encerra argumentos que se mostrariam inconsistentes: “é isso, e ponto final”. O ponto final é uma fuga para esconder fraquezas. É a saída unilateral dos que se dizem bem resolvidos, para não terem de resolver questões de difícil solução. É um ponto injusto. Tanto, que não tenho coragem de colocá-lo na nossa relação. Sou contra injustiças. E estaria sendo desonesto se não admitisse que me sentiria injustiçado ao me privar de você. Por isso, insisto nas reticências. Por isso, tiro exclamações da cartola. Por isso, eu, comodista, me apoio em interrogações, para encerrar argumentos que se mostraram inconsistentes. Na verdade, acho que, no fundo, invejo quem sabe aplicar o ponto final. Mas não nasci com esse dom. E quem paga por isso é você. Ou nós... O Vendedor de FloresDomingo, 30 de Novembro de 2008Não daria para descrever o calor. O sol refletia nos carros que passavam zunindo pelas seis faixas da avenida. Sob a mirrada sombra de uma árvore que nem dois metros de altura tinha, o vendedor de flores espiava as nuvens negras se formando no horizonte, enquanto esperava o próximo sinal vermelho. Logicamente, não estava sendo um bom dia. As roupas entranhavam nas dobras suadas do corpo. Seus lábios secos colavam um no outro. Desgrudou-os rondando entre os carros, apontando os buquês murchos. Voltou para seu posto. As nuvens se adensavam. Tinha sonolência pelo calor, por isso demorou a perceber que do outro lado da faixa de pedestres, agora dominado pelos carros, uma mulher acenava. Quando ele percebeu-a, ela mudou de gesto, e apontava para ele. O vendedor de flores olhou-se. Era o buquê. Ele mostrou-o, erguido em frente de si. Sim, isso mesmo, ela confirmava com sorriso nos lábios e nos olhos. O próximo gesto viera depois do sorriso. Ela coçava o indicador com o polegar de uma das mãos. Dinheiro. Ele olhou as flores. Olhou o céu, para o dia que terminaria em água abundante. Negou. Negou com outro gesto. Um não firme, de dedo indicador. E ergueu novamente as flores em direção à mulher. Ela não entendeu. Ergueu os ombros e as palmas. Ele selecionou dos poucos buquês que sobravam o melhor de todos. Desprezou os outros na sarjeta, sob a árvore. Ergueu o que sobrara. Ela ainda não entendera. O vendedor de flores apontou para o ramalhete em sua mão e depois apontou para a mulher. Ela concordou, sorriu, novamente esfregou indicador e polegar. Ele novamente, negou. E apenas apontou para ela. O céu já estava negro e o vento aumentava. Estavam ambos na sombra generosa das nuvens, mas mesmo assim o suor lhe escorria pela camisa, grudando-a ao peito. Pediu com a palma para frente, que ela esperasse e olhou para o farol. Quando o sinal fechou, eles se encontraram no meio do caminho entre as duas calçadas. - Não vende? - Não posso , não são minhas. - Ah – ela soava decepcionada. Olhou para o chão. - São suas. Ela as acolheu no peito com os dois braços. Aí finalmente choveu.
coisas que acontecem por aí sempre acontecem com
Felipe Tazzo | 1 misericordioso comentário
"Em treinamento..."Quinta, 27 de Novembro de 2008Silene não se considerava uma pessoa solitária. Nem era. Mas gostava de sair da academia no final da noite e ir direito para o mercado. Na verdade gostava de ir no mercado vestida de lycra. E ela vestia lycra com uma propriedade só dela. Precisava exibir os resultados dos quinhentos reais investidos mensalmente em personal e suprimentos e dietas diversas. Desfilava entre os corredores vazios e se detinha naqueles onde havia alguém. Se o transeunte fosse mulher, esticava o corpo para ver o preço dos produtos que estavam nas gôndolas superiores. Se fosse homem, curvava-se como quem verifica a validade de um enlatado sem pegá-lo. Evitava deter-se na presença exclusiva de funcionários que viviam a rondá-la, na esfarrapada desculpa de abastecer gôndolas já repletas. Joison tinha sido contratado a pouco. Ainda usava uma camiseta branca que em letras garrafais alardeavam a sua condição de temporário. Aprendera rápido a não fazer perguntas e a ser subserviente. Características que somada ao Tempo lhe encarregaria de trazer algum alívio financeiro. Precisava da grana para seus poucos gastos. Quando se é jovem, o pouco, quando não é muito, é suficiente. Exceto sexo, que nunca é muito, quanto menos suficiente. A primeira vez que Joison viu Silene ela estava curvada em direção as latas de ervilha enquanto outro cliente cedia à suas curvas. Da segunda vez, ela estava esticando-se para pegar um tubo de pasta de dente na prateleira mais alta enquanto uma cliente espiava o piercing que brotava de seu umbigo. Da terceira vez que a viu, Joison repunha a prateleira de polpas enquanto Silene, quase dentro do congelador vertical, escolhia um suco a base de soja e depois de três minutos confirma a suspeita de todos: ela não usava sutien. A primeira vez que Silene viu Joison foi um pouco antes de perder os sentidos. Deve ter dado tempo de ler a frase na camiseta antes de sentir a pancada seca no lado do rosto e cair no chão desacordada. Era tarde da noite e ela estava de Lycra. Muitos sentiram saudades de Silene, mas ninguém reclamou sua falta.
Rabiscado por
fezon | Comente e ganhe prêmios!
Minha menina, minha galera, minha mulherQuarta, 26 de Novembro de 2008Às vezes me parece o azul do céu. Ela planta, pinta e borda, rabisca e joga fora. Além das dores do parto. É o meu Don Quixote. E quando a saudade aperta, Ela é a minha mulher.
em prosa e verso por
Mariana Menezes | Comentários
E a vida não é mesmo uma piada?Quarta, 26 de Novembro de 2008Já cantaram que a gente somos inútil e não sabemos fazer nada direito, mas a busca pela diversão compensa este fardo imutável. Levamos inúmeros calotes e pagamos o pato mais uma vez, sem medo de sermos felizes. Já provamos do amor e da ilusão, do sensível e do inteligível e, quanto mais buscamos o empírico, mais nos deparamos com a ilusão.
Ou talvez seja ele mais uma dessas almas evoluídas, que já entenderam tudo, que a vida é mesmo uma piada, não vale o esforço de sacrifícios e sim a queima das calorias das grandes risadas.
Enquanto o melhor seria viver essa piada, por ser ela por si mesma sua finalidade: uma boa e longa gargalhada.
Canalizado em PVC por
Ivan Volpe | um já regressou
Sete grãosTerça, 25 de Novembro de 2008As manchas verdes de bolor não deixavam dúvida: aquele amor não era para sempre.
Aquela coisa toda por
Leandro Leal | 3 descendo o pau
O silêncio e os sapatosTerça, 25 de Novembro de 2008Se esses corredores fossem pavimentados com material inferior, a essas alturas já estariam marcados pelo diagrama delicado das solas de seus sapatos. Pela nave central suas pegadas bambeariam, uma vez que seu quadril e pernas já não eram grande coisa, ali pelo pilar do meio as marcas mudariam de direção, apontando para a escultura de suave surrealidade de Nata Paravella com suas curvas quase hídricas. Continuariam pelo caminho original, deteriam-se para queimar mais fundo no chão frente ao Galo de Brena Milito e sumiriam pelo corredor lateral. Notaria o visitante que as pegadas perdiam firmeza com o progredir das alas, mas que mesmo assim, deteriam-se religiosamente em suas obras de preferência, a Marylin Monroe de Augusto César Sanchez, a Moça do Brinco Amarelo, de Renato Pontello e o quadro sem nome de Bianca Baggio, que lhe dava a pachorra de levar àquelas paredes o traço irresponsável e impreciso das figuras longilíneas que flutuavam nas passarelas da moda. Mas o piso era de ladrilho hidráulico grosso e antiquado. Apesar de desgastado e pálido, era robusto e não cedia sob as marcas de sapato algum, para sorte dos visitantes e lamento daquele homem, cuja rota de respeito a cada obra permanecia uma homenagem invisível. Ocorria-lhe que, talvez seus sapatos não fosse o que mais importasse naquele museu. Com certeza não seriam as pegadas mais ilustres ali. Mas com certeza as mais freqüentes, conforme atestava o silêncio que perseguia seus movimentos naquela tarde quente de terça feira. Nem o segurança do prédio deslocava-se. Estava lá, estatelado na sua cadeira à recepção. Gordo, depositava o jornal sobre a pança redonda e ligava seu radinho, até ser impedido de ouvir música, em respeito ao ambiente. Assim podia o silêncio gravemente curvar-se frente a cada obra, investigando suas minúcias, mas escondendo-se atrás das colunas, quando os mesmos sapatos circundavam-se compassados nos próprios calcanhares e o guincho da sola ressoava. Quando estes retornavam à sua rota, o silêncio deixava seu esconderijo e tornava a cuidar do ambiente, admirador da arte que era. Não era na verdade um silêncio imperioso que disputava espaço naqueles salões contra o ganido dos calçados. Era um silêncio humilde. Frágil. Vinha ele pelos corredores manchado com os sons de lá de fora, do centro buliçoso da cidade. Buzinas distantes, gritos de comércio, roncos de motores, todos esses sons típicos do dia cobriam sei manto, que, quando não cedia espaço às provocações do homem solitário, rasgava-se à toa, preso numa ponta afiada de um incidente mais pronunciado da cidade. E a cada dia novo, o homem esgrimava o tango com o silêncio. Um provocava o outro, um cedia espaço ao outro. Palmo a palmo. Minuto a minuto. Nos dias em que o barulho da cidade era mais brando, por nenhum motivo especial, a dança era outra. Oprimido, o homem cedia, cedia, cedia e recolhia-se ao parapeito de uma das muitas janelas do casarão e espiava ora o gracioso solo da dança de seu companheiro naquele espaço enorme, ora a marcha das formigas operárias pequenas lá embaixo na calçada, cada um com sua vidinha, alheio às Brenas, Biancas, Renatos, Augustos e muitas outras magníficas obras congeladas naquelas paredes. Não conseguia compreender como podiam aqueles peões se moverem pelos quarteirões xadrezes da cidade e não esticarem um olho para dentro do museu. Não queria compreender, na verdade, como se formava a alma daquele que não conhecia Brena, Bianca, Renato, Augusto. Não conseguia dizer qual era o sentimento que lhe sufocava, qual era o motivo que o induzia a ignorar o solo que o silêncio performava rodopiando no chão e corria os dedos pelas cremonas de ferro que seguravam as janelas em seus lugares. Sim, ele as abria nesses dias. E abria a janela também, ambas as folhas, permitindo o vento lufar. Quadro ou outro se desgrudavam de suas paredes, como cachorros que percebem a presença da guia na mão do dono. Eles ansiavam desesperadamente por aquele passeio. Por que não juntar a arte que clama pelo povo, com o povo que carece da arte? Porque não fazer daquele proletário que erra cego no coração da cidade uma pessoa com algumas cores a mais nos olhos? Os quadros se agitavam mais com a idéia. O silêncio, fragilizado, titubeava entre ir e vir. Olhava o homem como quem pergunta “será?”, ou então “você teria a coragem?”. Nem o homem e nem o silêncio eram idiotas de pensar que a arte não pertencia ao museu e sim ao povo. Isso seria um clichê besta. Mas aquelas cores, aquelas formas, aquelas idéias, não poderiam ser reclusas. Precisariam voar. “Será?”, disse o silêncio, um pouco mais auto do que o senso comum permite antes da ironia. Mas não dizem que o silêncio ecoa por aí? Na cabeça do homem o silêncio ecoava. A ironia também. E qual o pior que poderia acontecer? Essa pergunta, o silêncio não respondeu, pois fugira novamente. Fugira bem fugido dessa vez, escondido muito longe do alcance do homem, pois era pisoteado por outros sapatos. Tênis, na verdade, sandálias, chinelos, todos pequenos. Crianças entravam pelo museu, mãos dadas, o professor na frente, indicando cada quadro, cobrindo com sua maré alta de pequenas gentes as marcas invisíveis das pegadas do homem que tudo espiava a partir da grande janela aberta. Líquidas, as crianças – só mesmo as crianças – escoaram por frestas e vãos, permeando tudo, tomando cada canto, olhando tudo, perguntando ainda mais e eventualmente colocando os dedinhos onde não podiam. Não houve como impedir um sorriso largo, satisfeito. “Deixa tudo como está,” ele diz. E cerrou a janela. O silêncio, muito bem escondido, não respondeu.
coisas que acontecem por aí sempre acontecem com
Felipe Tazzo | 1 misericordioso comentário
A 15 e a 16Sexta, 21 de Novembro de 2008Tentou ser feliz.
bibibi e bóbóbó por:
Xandão | Fala mais pô!
mais um ponto e PRONTO!Terça, 18 de Novembro de 2008rasga essa moralidade imposta SUPLICA vai! e BERRA! COME até encher a barriga vai Não ficou? VÁ EMBORA! EU?
rabisque em mim...
Tata Muchacha | rabiscadíssima...
ColarTerça, 18 de Novembro de 2008Nem com o passar de seis décadas e o uso, às vezes, descuidado, aquele bendito colar estourava. Ele assistiu três novas gerações surgirem. Viu, também, outras duas partirem. Compartilhou momentos importantes de alegria, tristeza, luta, luto, decepção, orgulho e perseverança. Já estava bem manchado, é verdade. Alguns elos até amassaram com a passagem dos anos. Entretanto, como nunca saía daquela garganta, era difícil alguém notar as imperfeições. Apenas ela o conhecia por inteiro. Sabia, inclusive, seus pontos vulneráveis. Por isso, de tempo em tempo, verificava o fecho e, quando necessário, fazia ajustes para não deixá-lo separar-se. Gostava dele do jeito que era e estava. De frente para o espelho, ela já não sabia mais se olhar sem vê-lo. Até mesmo as rugas, que insistiam em reaparecer, desafiando cremes e tratamentos, lhe pareciam menos suas do que aquela corrente. Em silêncio, contemplava atentamente: o colar e ela; ela e o colar. Enquanto ele, um pouco frio, tocava o seu pescoço. |