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Crazy Eurocopa

Quinta, 26 de Junho de 2008

Do lado do meu trabalho, tem esse café que eu freqüento. Eu sei, “café” parece coisa de fresco. Gostaria de dizer que é um bar ou um boteco, estabelecimentos muito mais condizentes com minha fama de machão, mas, fazer o quê, é um café. Os lugares onde as pessoas tomam capuccinos e comem croissants são chamados assim, e este é um deles. Mas, mesmo servindo essas iguarias e, por isso, fazendo jus à nomenclatura, o Alpendre está longe de ser um café, no sentido “ui ui ui” do termo.

Para começar, o dono é um maluco, que trata todo os fregueses como se fossem amigos de infância, com a maior intimidade. À primeira vista, parece um baita folgado. À milésima também, mas, já à terceira, você percebe que, mesmo folgado, o cara é boa gente. Ele age não como se estivesse em seu local de trabalho mas em casa, e o fato de nos tratar como íntimos justifica a permissão para entrar na sua residência. E, já que está em casa, a música ambiente é a de sua preferência, executada numa altura proibitiva para música que se pretende ambiente. Desavisados se assustam ao pedir um pão de queijo e serem atacados pelos acordes de “The Number of The Beast”, do Iron Maiden, ou pelo hino da extinta URSS. Isso quando os alto-falantes não despejam “Xixi nas Estrelas", do Guilherme Arantes – canção que, como a excreção do título, não devia ser executada em público. No começo o Alê (que é como o pirado se chama) dá medo, mas, depois de se acostumar às suas excentricidades, os clientes tornam-se assíduos, como eu. E, pela sua insistência em nos tratar como os melhores amigos, acabamos nos tornando, se não os melhores, amigos.

Essa amizade nos permitiu, a mim e ao Fred, que trabalha comigo e também é habitué (essa expressão, sim, é veadagem), dizer para o Crazy (que é como chamamos o Alê) ligar a TV no canal que transmite os jogos da Eurocopa. Se já era nosso amigo antes da sugestão, depois deve ter ficado muito mais – à tarde, no horário das partidas, o café está sempre lotado, o que me leva a crer que ninguém de fato trabalha, as empresas funcionam em moto-contínuo e empregam pessoas e pagam seus salários apenas para ter consumidores para seus produtos e serviços. Durante a copa européia, eu e o Fred antecipamos e prolongamos nossa descida para o café, a fim de acompanhar os últimos minutos de jogos como Itália x Holanda, Turquia x Croácia e, hoje, Espanha x Rússia. Este último país com a torcida entusiasmada do Crazy, de família vinda da vizinha Lituânia, e nossa – propus apoiarmos a seleção que tivesse mais gostosas na torcida. Inclusive, termino de escrever este texto após acompanhar os últimos minutos desse embate, no qual o time treinado pelo simpático Gus Hiddink e sua torcida feminina, mais simpática ainda, deram adeus à competição.

Espanha x Alemanha fazem a final da Eurocopa nesse domingo, e só por isso não verei o jogo no Alpendre. Provavelmente, assistirei num bar ou num boteco – afinal, tirando o do meu amigo Crazy, não tem o menor cabimento assistir ao futebol num café, ainda mais no fim de semana. Minha única dúvida agora é para quem torcer. A Alemanha tem mais gatas que o rival, mas tenho um misto de simpatia e dó pela Espanha.

Aquela coisa toda por Leandro Leal | 10 descendo o pau