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Sexta, 22 de Outubro de 2004
* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais
Podendo escolher entre operar da vesícula e ser mesário, ficaria com a primeira. Mas, naquela tarde, meu hipocondrismo foi vencido pela minha obrigação cívica. O Juiz Eleitoral não aceitou nenhum dos meus treze atestados médicos e, só restou a esperança de contrair alguma gripe, virose, ou até uma infecção bacteriológica na seção eleitoral.
Que nada. Era meio dia e não tinha sentido sequer uma tonturinha causada por aquele calor. Até minha renite alérgica, companheira inseparável, não reagia aos meus esforços de moer os gizes no quadro negro e aspirar aquela poeira branca em busca de um escorrimento, de um ataque de espirros, que fosse.
Estava desalentado. Já contabilizava aquela derrota, quando vi minha esperança entrar pela sala, dentro de um isopor amassado, servida com pão de forma e alface picada. Aquele sanduíche teria que ter pelo menos uma salmonela, um rottha vírus ou, no mínimo, uma quantidade suficiente de coliformes fecais que me deixassem “descalibrado” pelo resto do dia.
Comi de uma pegada só, pedi outro, e ainda, um último, que só consegui depois de estapear o moleque que não queria deixar que eu comesse. “Esse não doutor, este é de atum, de dias atrás, ficou fora da geladeira”, era tudo que eu precisava ouvir. Sai correndo pela Seção, me escondi atrás do tapume da urna e, do alto de minha autoridade, ordenei que se ele não saísse dali imediatamente, eu pediria reforço policial. “Mas doutor, isso vai te fazer mal...”. “Soldado!”. “Tá bom, tá bom, eu saio...”.
Refugiados não se alimentam com tanta vontade. Reparei que aquele atum estava com gosto estranho, o que me deliciou ainda mais. Tomei uma boa quantidade de água morna para apressar os efeitos, e fiquei esperando, atrás de meu sorriso, que aquele manjar desse conta do recado.
Eram quatro horas da tarde quando Selestino, secretário da Seção deu entrada no Pronto Socorro. Diarréia e vômito. E eu, sem entender o que tinha ocorrido, fui buscar explicação no lixo. Lá estava, a etiqueta do meu sanduíche “Sardinha - 03/10” e embaixo da carteira do Selestino, a embalagem plástica com a etiqueta: “Atum – 15/09”. Roguei raivoso: “Malditas eleições! Malditos vendedores de sanduíche analfabetos...”. Aí a luz apagou, e só lembro de ter acordado aqui, agora.
- “Interessante! Olha, o seu médico chegou!”
- “Senhor Basílio, o senhor de novo por aqui? O que foi desta vez, outra infecção pulmonar? Ou o apêndice que estourou de novo?”
- “Doutor, ele sofreu um infarto... ele estava me contando que...”.
- “Infarto? Que maravilha seu Basílio! Olha, a pressão já está melhor, mas nunca se sabe... vou receitar umas ‘coisinhas’ ótimas para o senhor... que felicidade hein?, que maravilha, deve estar felicíssimo... Pode deixar, eu garanto pelo menos três safenas... Jucinete! Ô Jucinete! o Basílio teve um infarto, vem ver, vem ver... e traz a câmera”!?
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