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Vida - Um Episódio da Morte
Vida - Um Episódio da Morte
Terça, 15 de Novembro de 2005
* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais
Baseado em personagens de Terry Pratchett.
Morte abriu os olhos. Claro que isso é só uma metáfora, afinal o Morte não tem pálpebras e muito menos precisa dormir. Outro detalhe importante. Apesar do que a crença popular nos faz acreditar, Morte é um cara, é "o" Morte. Talvez seja até mais fácil pensar assim do que em uma mulher que anda por aí ceifando a vida de todo mundo. Pode ser machismo meu, mas mulher é assim, mais sensível, né?
Por se tratar de uma manifestação corpórea antropomórfica, Morte gostava de tentar pensar como os humanos. Por isso se deitava de vez em quando para tentar entender "cansaço" e "sono". Até agora o máximo que ele conseguiu foi que as duas coisas são sinônimos para "necessidade de ficar na horizontal". O próximo passo de seus estudos é determinar o que causa essa necessidade.
Ao "acordar" percebeu que alguém estava no canto do quarto. Não é muito fácil assustar alguém na posição em que o Morte se encontra, sendo quem ele é. Mas aquele sujeitinho de gravata borboleta causou uma sensação de estranheza até então desconhecida para ele. Ele arriscou:
- Pois não?
O sujeito deu um passo a frente. Usava um paletó xadrez, camisa azul, gravata borboleta amarela, uma boiniha e um par de óculos de aro fino, redondos. Não fosse pelos dois últimos detalhes, daria para pensar que era o Jô Soares. Numa versão diet.
- Lindo dia, não? - A voz dele era calma demais. Meio melada. - Parece que hoje não vai chover...
Um estranho comentário, se levarmos em conta o fato de que o local onde eles se encontravam não poderia ser submetido às leis físicas e atmosféricas as quais estamos acostumados.
- Pois é... Acho que não. É... Você tem certeza que deveria estar aqui?
- Claro! Você é o Morte, não?
- Sim.
- Pois então. Muito prazer. Eu sou o Vida. - E deu mais uns passos prá frente, com o braço esticado, pronto para sacudir os ossos do Morte.
Um pouco desconfiado, Morte estendeu o braço e apertou a mão da figurinha. O barulho desse aperto de mãos é perturbador demais para tentar ser descrito aqui. Mas pense em todas as unhas do mundo raspando o maior quadro negro possível enquanto a Celine Dion canta algum funk carioca.
- Mas o que você quer aqui? - Morte começava a perder um pouco o controle da situação.
- Bom, quando você vai visitar alguém, é um pouco óbvio o que você vai fazer. É tão difícil assim de imaginar o que eu estou fazendo por aqui? Aliás, fantástico o desenho do seu papel de parede!
- Mas isso não é possível! Não faz sentido!
- Veja, não vai ser uma coisa permanente. Aliás, nenhuma vida é. Talvez essa seja uma das minhas maiores frustrações, afinal a morte é.
- É algum tipo de vingança? Retaliação?
- Claro que não! Você sabe que esses desígnios estão acima de nossa alçada.
- Mas eu nunca tinha ouvido falar que existia um Vida.
- E nunca ficou curioso por saber quem trazia todos esses infelizes que você leva?
- Pensei que tinha alguma coisa com cegonhas e repolhos...
- Bom, temos que nos apressar. Seu tempo está terminando. Ou melhor está começando... Pensando bem, considere isso como um intervalo.
De dentro de uma mala que tinha ficado no canto do quarto, Vida tirou alguma coisa que parecia uma baguete e apontou para Morte. Um grande clarão se fez, envolvendo todo quarto, toda a casa, até que em todo canto do universo parecesse que alguém tinha esquecido a luz acesa.
No momento seguinte, Morte estava deitado em um campo. Vida estava sentado embaixo de uma árvore, uns 5 metros afastado.
Morte tentou se levantar, mas pela primeira vez a força da gravidade fez sentido para ele e a tentativa foi um pouco frustrada. Como ele não era nada idiota se deu conta do que estava acontecendo e da segunda vez tentou usar as pernas e os braços para se erguer. Andar foi um pouco mais complicado, e quinze minutos depois conseguiu chegar perto da árvore.
- Então qual é o negócio?
- Simples. É uma espécie de aprendizado. Esse corpo que você está usando é de um motoboy que se esborrachou contra essa árvore tentando cortar caminho para chegar mais rápido para fazer uma entrega. Depois de terminar o trabalho dele, você tem o dia de hoje para suas "pesquisas". Daqui 24 horas a gente se encontra novamente. Até lá!
Antes de Morte conseguir fazer qualquer outra pergunta, Vida já tinha desaparecido em pleno ar.
Apesar das limitações físicas de seu corpo humano, Morte ainda mantinha algumas das suas características de manifestação corpórea antropomórfica, como sua onisciência, sua inteligência e uma extrema sensibilidade a alimentos com curry. Então não foi muito complicado para ele aprender logo como funcionava esse lance de músculos, ossos, impulsos nervosos. A parte das glândulas e secreções não foi muito agradável de aprender, mas fazia parte e não teria como simplesmente ignorar, como muitos dizem, o chamado da natureza.
Assim, após fazer a entrega que o motoboy deveria ter feito e ganhar uma gorjeta boa o suficiente para testar o que os humanos viam de tão interessante no churrasco grego com suco de laranja, Morte passou o resto do dia tentando entender do que os humanos são feitos.
Além de toda sorte de sensações físicas provocadas por essa camadinha de células que chamam de pele, o que mais chamou a atenção foram as sensações de fome, sede, sono (finalmente!) e dor. Muitos estranharam aquele jovem batendo insistentemente a cabeça contra um poste, mas para Morte tudo valia em nome da ciência. E queira ou não, em menos de 20 horas ele perderia qualquer chance de fazer isso novamente.
E assim Morte passou suas 24 horas de vida. Testando cada sensação que o corpo pudesse fornecer. Doses de adrenalina ao ser perseguido por um bando de skinheads, frio intenso ao se trancar num caminhão frigorífico, calor estafante nas cozinhas de um grande restaurante. Até se deu ao luxo de dormir alguns minutos para entender o que era o sono e o que ele provocava.
Esse caldeirão de sensações que é o corpo humano deixou Morte tão perplexo que ele nem se deu conta da presença de Vida enquanto, em mais uma de suas experiências, tentava entender porque alguns homens tinham gritado para ele morder os cotovelos.
- ã-hum....
- Ah... Olá. Não dá para morder os cotovelos! Não dá para morder os cotovelos! - gritava exaltado Morte.
- Realmente, muito perspicaz de sua parte. Está na hora.
- Não, não! Ainda tenho que tentar lamber a testa e ver se um sujeito para o qual eu fiz umas perguntas está naquela esquina!
- Veja, isso não foi uma oferta. Foi um desígnio maior. E você, tanto quanto eu, não podemos nos opor aos desígnios maiores. Nem mesmo aos menores.
- Mas...
- Você sabe que não temos tempo para um "mas". Em 24 horas a população da Terra já está sentindo sua falta. Principalmente na Índia e na China. - Vida disse isso tirando de dentro de sua mala a foice e o manto de Morte.
Um pouco triste - sim, Morte já sabia também o que era tristeza - ele pegou a foice e o manto e no mesmo instante descorporou. Mais uma vez como sempre existiu, Morte disse:
- Foi uma experiência única. Uma pena que nem todos possam experimentar. Curiosamente todos que experimentam só tem por certeza seu encontro eventual comigo.
- Talvez assim você entenda porque normalmente nesse encontro eles gritem e tentem fugir.
- Sim, vai ajudar com meu problema de baixa estima. E acho que me fez entender que talvez a vida seja apenas um estágio da morte.
- E vice-versa.
- Isso.
- Bom, acho que ficamos por aqui então. Talvez eu devesse agradecer.
- Não tem do que. Quem sabe não nos encontramos de novo? Afinal desde antes do tempo ser tempo eu já estou vivo, uma experiência diferente pode me servir para alguma coisa. Meio como uma reciclagem.
- Quem sabe...
- Então, adeus!
E mais uma vez Vida desapareceu em pleno ar. Com muito o que pensar, Morte voltou a seus afazeres. Mas com muito mais tato e sensibilidade.
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