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Viciados em Morfina, Drogas e Psicotrópicos

Quarta, 29 de Setembro de 2004

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

“De médico e louco, todo mundo tem um pouco”. Verdade incontestável. Quando você está estressado, não sai pra tomar um uísque, uma cervejinha? Quando está elétrico ou quer “curtir melhor” uma festa não fuma um ou toma umas doses de vodka? Não recorre ao calmante quando quer dormir melhor, depois de dias de insônia? E quando precisa ficar acordado finalizando um projeto, não apela para um guaraná, uma coca-cola, adrenalina em cápsula? Que tal um chá de cogumelo ou um Santo Daime para encontrar seu verdadeiro eu, perdido dentro desta sua cabecinha oca? Ao fazer isso, estamos claramente nos auto-medicando: temos um problema x, não fazemos um diagnóstico muito preciso, mas assim mesmo achamos que temos total domínio da ciência e sabemos que aquela coisinha mágica vai nos ajudar.

E depois que passa o efeito, ninguém vai pensar em profilaxia. O negócio é assim: funcionou uma vez, funcionará sempre. Quando voltar a aparecer o problema, tomamos, cheiramos, injetamos a devida droga e eventualmente ficaremos bem. Convenhamos: somos viciados, cheios de crises psicológicas e achamos que sabemos nos curar.

Todas as drogas mencionadas acima são conhecidas como psicotrópicas. Agem no sistema nervoso central, algumas diminuindo a sua atividade, outras estimulando e outras apenas perturbando. Todas, indubitavelmente, causam dependência. Sua falta não vai necessariamente gerar um caso clínico, mas pode provocar sintomas penosos. Essas drogas estimulam uma busca aos prazeres, enquanto negam o sofrimento por um determinado período de tempo. A abstinência pode causar verdadeiras crises no paciente-que-pensa-que-é-médico.

Morfina pode ser claramente comparada a uma droga psicotrópica. Vicia na primeira dose. Quando há a omissão de uma ou duas doses na semana, o doente escreve cobrando: cadê? Eu arriscaria dizer que a Morfina que conhecemos é um depressor do sistema nervoso, que age desligando a pessoa da realidade, deixando-a desinteressada pelas coisas. Ao mesmo tempo, me intriga a tal cobrança do usuário... seria só o vício? Será tão bom assim o estado de anestesia constante?

Neste cenário, analiso o próprio nome e noto que, como os demais estimulantes do sistema nervoso (nicotina, anfetamina, cocaína, cafeína), Morfina termina com “ina”. Naturalmente chego à conclusão que deva causar uma hiperatividade cerebral em algum momento.

Agora, ao estudar profundamente os efeitos causados pela Morfina durante a sua injeção, percebemos que são absolutamente semelhantes aos efeitos dos alucinógenos, ou das drogas psicotrópicas pertubadoras do sistema nervoso. Se você consegue imaginar um pombo falando, meu querido, ou uma cigarra mudando de sexo, sabe o que quero dizer. E se você está lendo este texto, provavelmente é um viciado incurável que fareja Morfina aonde quer que ela vá. Eu sou uma viciada assumida, ávida consumidora. Fui convidada a participar deste grupo que só trabalha à base de doses cavalares de psicotrópicos e que responde pelo nome de Morfina. A meta aqui é provocar, deprimir, alucinar, causar estranhamento, gerar crises existenciais, curar dor de cotovelo. Da minha parte, oferecerei todo o tipo de drogas que puderem tratar o meu vício e estimular um pouquinho mais o seu. Espero que sejamos incuráveis. Enjoy!

devaneio de: Sil Curiati | 17! E o cordão dos puxa-saco cada vez aumenta mais!