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Vem, Irmão

Quinta, 29 de Junho de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

É muito difícil ter uma religião. São tantas regrinhas, não pode isso, não pode aquilo. Tentei várias religiões: o cristianismo, o judaísmo, o islamismo, o taoísmo e até uma que acreditava no poder curativo da cabeçada na parede. Essa última, até que era mais tranqüila. Mas tinha poucos seguidores em liberdade e, por isso, o templo acabou fechando.

Sem rumo, resolvi criar eu mesmo minha própria religião. E foi aí que eu percebi a dificuldade que tem essa gente. Pra começar, já pegaram todos os melhores nomes de religião – e até alguns dos piores. Optei por chamar a minha religião de Totó, em homenagem ao primeiro crocodilo de estimação que eu tive.

Toda religião precisa de um livro. Um livro gigantesco, cheio de metáforas esquisitas e sentidos figurados que permitem diversas interpretações completamente opostas. Adotei o “Finnegan’s Wake”, do James Joyce. Nunca li o Finnegan’s Wake. E acho que, na verdade, ninguém nunca leu – nem o James Joyce, que devia estar bêbado na ocasião. Perfeito: assim, eu poderia dizer o que quisesse e ninguém iria duvidar que está escrito.

O templo foi a parte mais simples. Aluguei um escritório num prediozinho do Leblon, coloquei lá um altar com a foto do Canarinho da Praça É Nossa e pintei a janela para parecer um vitral.

Só faltavam os fiéis. Peguei o Finnegan’s Wake, fui até uma esquina do Centro e fiquei gritando. Não sabia exatamente o que gritar e precisei improvisar, recitando o Batatinha Quando Nasce ad infinitum. Em pouco tempo, um grupo grande de pessoas se juntou ao meu redor. Levei-os ao templo e fiz um lindo sermão que falava da importância do capacete de hóquei na fé.

O Totó estava indo muito bem. O escritório-templo no prediozinho do Leblon vivia cheio. Até que o vizinho declarou Guerra Santa. O corredor do nosso andar se tornou praticamente uma Faixa de Gaza. Eu até tinha força. Mas ele, o vizinho, inventou de oferecer bolinhos de chocolate no lugar da hóstia. Perdi todos os meus fiéis para o desgraçado.

E o raio do bolinho de chocolate até que era bom. Acabei eu mesmo me convertendo para a religião dele.

De acordo com Daniell Rezende | 3 pessoas já deram o comentaise.