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Uma observação, uma pequena história e um protestoSexta, 19 de Maio de 2006* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Antes do cuidado, uma observação:Ontem, recebi um telefonema-ameaça. Era a Vanessa Marques (para quem não conhece, uma das editoras deste sítio). Mais uma vez, prometendo-me uma demissão devido à qualidade duvidosa dos meus textos. Além disso, ela me pediu para comprar dez cartões da vivo, dez da claro e dez da tim e ligasse de volta para dizer os códigos. Se eu fizesse isso, teria direito a mais uma semana de vida entre os morfínicos. Disse-me ainda que era a oportunidade de escrever alguma coisa útil. Para isso, o texto deveria gerar pelo menos dez comentários. Então, vamos à história. Geanílson era um rapaz exemplar, desses que não existem mais hoje em dia. Cuidava da avó doente, do cachorro cego e do meio-irmão alcoólatra. Tratava com carinho os humildes e com passividade os brutos. Cooperava com a associação dos moradores, com o padre da paróquia e com o asilo do bairro. Doava tudo o que tinha. Não fumava, não bebia, não jogava. Seu único vício era o amor, estranho amor, que nutria pelo vizinho-ex-presidiário-membro-do-PCC. Até o dia em que a facção criminosa começou a arregimentar novos membros. Geanílson se candidatou. Encarou horas na fila, passou pelas provas de conhecimentos gerais, pela dinâmica de grupo e pela entrevista. Tudo para ficar mais próximo do seu amor. Abandonou então a avó, o cachorro e o meio-irmão às próprias sortes. Passou a dedicar todo o cuidado aos membros da corporação. Cuidava dos feridos, da contabilidade e da arrecadação de cartões telefônicos na região. E conseguiu o que queria: conquistar o grande amor. Amou, amou e amou. Até que o pececista se apaixonou por uma mulher. E deixou Geanílson sozinho. Geanílson então decidiu desistir de tudo. Do PCC e da vida. Morreu só, sem cuidados, abandonado. E agora a arrecadação de cartões telefônicos na região do Jardim Independência está a cargo de outra pessoa. Desconfio que seja a mesma que me ligou ontem pedindo os ditos-cujos. Depois do cuidado, um protesto: Como inúmeros brasileiros, comprei o álbum da Copa. Depois de gastar uma fortuna para completá-lo, vieram as convocações. Tá tudo errado. Roque Júnior, Júlio Baptista e uma série de outros que estão lá não vão pra Alemanha. E agora? E a frase do dia: O pé do pato tem pato. O pato do pé tem pé. |