|
|
Home >
>
Uma História com Alguma Moral
Uma História com Alguma Moral
Sexta, 1 de Outubro de 2004
* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais
Danilo se orgulhava por nunca se apaixonar, nunca se acostumar e nunca se viciar. Não havia nada que fizesse duas vezes seguidas. Jamais saía com a mesma garota, ficava louco pelo mesmo motivo ou freqüentava a mesma balada. E barbarizava. Era raríssimo o dia em que se podia encontrá-lo consciente. Para manter a infidelidade, experimentava de tudo. Era considerado uma referência, um dicionário, um vade mecum dos psicotrópicos e das mulheres.
Cocaína, loira oxigenada; heroína, morena mignon; efedrina, negra de olhos azuis; xilocaína, japonesa com cabelo verde; maçã do amor, índia com o beiço furado; cogumelo, turca peluda; benflogim, judia com piercing nos grandes lábios; diazepan, gorda sem celulite; lexotan, chinesa careca com tailandesa nariguda... E assim se seguiam suas noites. Mulheres novas e drogas novas a cada jornada.
Até que um dia, um amigo iraniano, conhecido por sua capacidade de receber encomendas do mundo inteiro, trouxe uma tal poeira do Azerbaijão, que garantiu ser ainda mais poderosa que o mel verde da semana anterior. Deveria ser cheirado apenas dois grãos por vez para dar o efeito esperado. Prometeu que seria uma loucura inenarrável. Só pediu para tomar cuidado: poderia causar danos irreversíveis à identidade de quem usava.
Danilo experimentou no banheiro da balada. Sozinho, ficou tonto, cambaleante, tentou se segurar em alguma coisa. Foi quando pegou num bastão enorme. Era Paulão, que tirava naquele momento o instrumento para fora na tentativa de aliviar a bexiga. (Paulão era um negrão, de dois metros de altura, segurança da balada, crente da Assembléia de Deus.) Danilo gostou. E nunca mais largou a estrovenga do negrão. Casaram-se há dois anos numa cerimônia intimista, na praia, com poeira do Azerbaijão e seguranças negrões de dois metros de altura para todo o mundo.
Moral da história, para o Danilo: tudo vale pena, quando a alma não é pequena. Moral da história, para quem foi ao casamento: It’s raining men, hallelujah.
|