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Uma grande cagada

Sábado, 22 de Abril de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Nunca fui um cara muito supersticioso. Porém, ao longo da vida reparei que vários tipos de crença popular envolvem assuntos como escada e merda. É curioso como as pessoas, especialmente no Interior, acreditam no poder do cocô e de degrais na mudança de rumo das suas vidas. Há aqueles que juram que passar embaixo de uma escada pode trazer azar por muito tempo. Outros acham que pisar na bosta é sinal de sorte.

Alheio a tudo isso, não estranhei quando entrei no banheiro do trabalho, na tarde de ontem, e notei que dentro da cabine havia uma grande escada que ia até o teto. Comecei o ritual normalmente e tudo estava indo bem. O fluxo intestinal estava perfeito e aparentemente seria uma atividade sem intercorrências. Foi quando ouvi as primeiras falas, vindas de um local que eu não consegui identificar inicialmente: “Não Zé Vitor, aqui já está pronto. Consertei o cano e já estou descendo para o subsolo”.

Fiquei imaginando de onde vinha aquela voz. De dentro do banheiro não era e não havia janelas por perto. Intriguei-me, mas continuei o que estava fazendo. Estava no auge quando ouvi as vozes novamente: “Beleza. Tô só acabando de retirar as ferramentas e vou descer”. Imediatamente, comecei a ouvir passos vindos de cima da minha cabeça. Percebi que o cara estava no telhado e comecei a juntar as coisas. Aquela escada vindo até a cabine onde eu ocupava. Aquela voz. Aquelas palavras dizendo que iriam descer. Aquele alçapão em cima de mim. Os passos...

Comecei a tentar acelerar o processo. Peguei o primeiro pedaço de papel higiênico e dei início ao trabalho. Foi quando pude notar o corpo do cara já se aproximando da escada. Joguei o papel no lixo e dei o primeiro grito: “Tem gente”. Foi inútil. O cara pôs o pé no primeiro degrau da escada. Peguei o segundo pedaço de papel, dei uma passada rápida, joguei no lixo e dei outro berro. “Tem gente aqui”. Ignorado. O rapaz já estava alcançando o quarto degrau.

Fiquei transtornado. Rapidamente, peguei um pedaço grande de papel, enganchei no meio das pernas, levantei da privada, tentei subir as calças e falei desconcertado: “Eu tô aqui, meu amigo”. Ele estava bem próximo e naquela altura já devia estar sentindo o problema. Não havia mais o que fazer. Sem perder a naturalidade, aquele senhor, que imediatamente eu reconheci como o Josué da Manutenção, olhou para mim tentando fingir tranqüilidade, apontou para a privada e afirmou: “Fica à vontade, eu tô saindo”.

Éramos eu, ele, aquela escada, a privada e a porta da cabine. Sim, a porta. Alguém teria de abrir a porta. Eu era o dono da casa. Ele, a visita. Pelas regras de etiqueta, eu teria de virar a chave. Ele alcançou o último degrau da escada. Olhou novamente para mim e pediu desculpas, dessa vez sem conseguir disfarçar o constrangimento. Fiz um sinal de tudo bem com a cabeça e me dirigi à porta, andando com a calça puxada. Abri o trinco e ainda ouvi ele me agradecer.

Fechei a tranca. Voltei à privada. Terminei e retornei para minha sala. Entrei na redação e coincidentemente o Sr. Josué estava lá, arrumando uma janela quebrada. Ele me observou com cumplicidade e acenou. Dei um breve sorriso. Sentei em frente ao meu computador e comecei a pensar sobre o que havia ocorrido. Era para ser uma corriqueira ida ao banheiro, mas tudo se tornou uma grande cagada. Dei mais uma olhada para aquele senhor. Notei, pela janela onde ele estava, que havia ao lado um gato preto sentado e observando-me, quase sorrindo. Foi inevitável, virei supersticioso.

        

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