|
|
Home >
>
Um porre cinematográfico
Um porre cinematográfico
Sábado, 20 de Novembro de 2004
* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais
Abriu os olhos com dificuldade. Piscou uma, duas vezes. A luz queimava a visão e as pálpebras pareciam cheias de areia. Aos poucos as imagens foram tomando forma, se construindo a sua volta. Foi aí que uma voz gritou o que lhe pareceu ser uma pergunta. Repetiu e tornou a repetir. Mas ele não entendia, já que aquele suposto questionamento não era feito em sua língua. Começou uma verificação pessoal: estava de pé e parecia estar preso pelos pulsos e tornozelos a uma espécie de cama de ferro, só que no sentido vertical. O local tinha jeito de uma choupana úmida e muito abafada.
– Parece... que diabos, parece uma destas salas de interrogatório de filmes sobre o Vietnã.
Ainda estava pensando nisso, quando o vietcong mais próximo repetiu a pergunta uma vez mais:
– Tchang sirink lo tcho huang?
Havia mais outros dois, sentados ao redor de uma mesa e que só o olhavam. Ele só pôde achar aquilo muito esquisito. Sua cabeça doía uma barbaridade e não fazia idéia de como tinha ido parar naquele cenário bizarro.
Com impaciência, um vietcong levantou de um salto. Aproximou-se e mexeu em um aparelho que estava na parede, ao lado da tal cama vertical. Imediatamente, uma corrente elétrica fez seu corpo todo estremecer. Debatia-se e gritava fazendo o metal se retorcer com toda a força de seus braços e pernas. Naquele momento teve certeza de que responderia todas as perguntas em qualquer língua que fossem feitas. Tudo para evitar aquela sensação.
Não dando a mínima, os vietcongues riam e continuavam a eletrocutá-lo. Já ele, também parecia estar rindo, porém eram somente as feições do rosto sob o efeito dos choques.
A coisa durou mais uns instantes e, por fim, ele desmaiou.
***
Acordou com um soco direto na cara, que lhe abriu o supercílio. Agora estava no centro de um ringue e o cara a sua frente tinha toda a pinta de ser um boxeador. Descobriu isso já nos primeiros cruzados que acertaram sua cabeça. A multidão que lotava o lugar vibrava, ensandecida. O massacre ia adiante e a dor de cabeça continuava lá, firme. Só que agora recebia a companhia de outras dores em muitos outros pontos do seu corpo. Na boca, sentia um gosto de chumbo – ou cabo de guarda-chuva, como diria seu velho pai.
Apesar da barulheira, uma vozinha estridente se sobrepunha a de todos: – CAMPEÃO! VAMOS CAMPEÃO, VOCÊ VAI CONSEGUIR – choramingava um menino loirinho, em um dos corners.
Cansado de ser espancado, resolveu arriscar suas patadas. E no toma lá, dá cá que se seguiu é bem verdade que apanhou bastante, porém também acertou algumas.
O embate continuou e ele parecia estar levando a pior. No entanto, em um lance de pura sorte, acertou um direto bem no queixo do boxeador. O cara desmoronou na lona e a contagem foi aberta: Um, 2, III... ...VIII, 9, dez.
O ringue foi invadido, ele erguido e declarado o vencedor pelo juiz. O menino continuava a gritar:
– CAMPEÃO, CAMPEÃO!?
Pouco depois, por conta de todas as pancadas que tomou, começou a sentir-se tonto. A ladainha do moleque continuava, porém parecia cada vez mais distante: – CAMPEÃO, campeão!?
Antes de desfalecer, ainda teve tempo de pensar: – mas que saco, hein, fedelho!? Desfaleceu.
***
Despertou com a grama pinicando seu corpo. Estava deitado em uma enorme colina, com a roupa toda vomitada. Era um dia ensolarado e ele se perguntava o que estaria fazendo ali. De repente, surge uma mulher de cabelo curto, cercada por uma criançada, todos na maior algazarra. Eles vêm descendo a colina e cantando uma música horrível. Passaram por ele sorrindo e girando, sem parar com a cantoria. Para ele bastou, sempre odiou musicais.
Desta vez era para valer: PARARIA DE BEBER. Levantou-se, xingou a Julie Andrews, deu um croque em um dos moleques e seguiu para sua casa, ao pé da colina.
Chegando, ligou para os amigos, um por um, para avisá-los da decisão tomada. Parece que foi o Marcílio que deu a idéia:
– Mas isso merece uma comemoração.
À noite, já estavam todos entornando de novo no bar.
|