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Um dia da caça, outro do caçador

Quarta, 30 de Novembro de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

- Pare de brincar com a comida, menina! Coma logo antes que esfrie tudo!

Luciana escutava o mesmo lero-lero todo santo dia e nem por isso mudava.
Sentava-se à mesa com todos e sempre era a última a sair, pelo menos meia hora depois de os pratos já terem sido lavados.
Tombava a cabeça, apoiando-a em sua mão esquerda, cotovelo sobre a mesa. Com a mão direita segurava o garfo por cima, como se manuseasse uma pá, e ficava espalhando os grãos no seu prato, fazendo desenhos imaginários com ajuda do talher. De vez em quando comia, vagarosamente, uma única ervilha mastigando-a 36 vezes, como tinha de ser.

Pensavam que ela ficaria anêmica. Ninguém entendia a relação da menina com o alimento.
Luciana realmente brincava com a comida porque podia escutá-la. Ouvia tudo o que aqueles seres inanimados diziam, e quando se passa a conhecer o outro, saber de seus problemas, de sua família, da noiva que ficou no saco, dos pais que foram pra panela antes de terminar de criá-lo, do filho raptado, fica muito mais difícil manter uma relação predadora com a criatura. A menina se solidarizava com a situação que a vida lhes havia apresentado.

Dos alimentos crus sabia tudo: eram os de mais fácil comunicação. Falavam claramente, em alto e bom som, para que todos ouvissem suas lamúrias. Já os cozidos eram um pouco mais complicados. Eram de fala lenta, num tom de voz mais amaciado, mole, como alguém que sai de uma sauna. Trocavam as bolas, enrolavam a língua, talvez pela exposição ao calor excessivo. Os fritos eram terríveis. Não é justo dizer que falavam: eles emitiam grunhidos. Irritavam-se por qualquer coisa, gritavam, eram traumatizados com a vida e o destino implacável que batera em seu pacote.

As únicas vezes em que Luciana comia algum deles, era por insistência do mesmo, que queria pôr fim ao seu sofrimento - fosse por idade avançada ou por reações ao método de preparo. Nestas horas, todos os demais ficavam gelados, tremendo, olhando a cena com pavor: Luciana espetava o condenado com o garfo e o levava à boca, mastigando-o cuidadosamente, imaginando aquilo ser um chiclete para lhe doer menos (todos sabem que chicletes não falam, portanto não havia nenhuma relação amigável entre ela e as gomas). Rezava enquanto o fazia, para não sentir-se pecadora... na verdade considerava estar fazendo um bem à criatura, já que ela própria havia decidido colocar um ponto final em sua vida bandida.

Mas como nesta dimensão não se pode confiar em ninguém, um belo dia os alimentos se rebelaram contra Luciana, indiciando-a por prática deliberada de eutanásia.
Ela fora condenada a viver numa caixa de pizza com restos de salame, mortadela, prosciutto e outros seres tagarelas fatti en Itália, que juntavam-se duas vezes ao dia para falar (todos juntos e gesticulando, obviamente), terminando a noite sempre com uma tarantella. Terrorismo puro, sofrimento brutal. Aquele cheiro forte de comida vencida misturado ao barulho ensurdecedor eram pior que qualquer tortura medieval.
E como a ocasião faz o ladrão, Luciana aprendeu a comer, para não enlouquecer.



devaneio de: Sil Curiati | 3! E o cordão dos puxa-saco cada vez aumenta mais!