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Um CD pra você

Quarta, 31 de Maio de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Como pra mim a vida é um grande filme ou peça teatral onde eu sou uma das personagens principais - junto aos mais chegados - o resto da galera é coadjuvante, e seres invisíveis são a platéia, nada mais natural que haver uma trilha sonora matadora pontuando as cenas.
A playlist é quilométrica, não dá pra enumerar todas as músicas que já me fizeram pensar “esta tem tudo a ver comigo”, porque depende da situação, do contexto, do momento em que vivo, de quem me acompanha, do que comi na véspera e do que pretendo fazer à noite.
Vamos então supor um dia tipicamente urbano, para entrar no tema. Um dia paulistano com tudo o que um cidadão tem direito: madrugar, poluição, trânsito, flanelinha, mendigo, fila, horário rígido, pastel de feira, shopping center, happy hour, cochilo e balada. Não nesta ordem, porque um dia típico é sempre caótico.
Madrugar necessariamente tem que ser o primeiro ponto, porque se dormíssemos um pouco mais, nada disso aconteceria (bão também, diga-se de passagem). Não se deixe enganar pela pegada blues, Bob Dylan é bem urbano. Trilha do despertar: Baby Let Me Follow You Down. Combina com preguiça, aquela coçada na pança, um café preto quente, pão francês e manteiga Aviação. Tá certo que esta imagem toda ficaria ótima numa fazenda, mas a vida é minha, o filme é meu, e eu quero que meu dia amanheça assim (menos a cocadinha na pança, que foi para agradar alguns leitores apenas).
Depois deste belo amanhecer a gente sai de casa crente que está numa cidade erma, ensolarada e fresca. Entra no carro sujo e apertado, faz de conta que está num conversível e sai imaginando que a rua se transformou numa estrada ampla, ao som de Sexx Laws, do Beck. Acho ele urbano pacas, um menino da cidade. Nem sei bem de onde veio, qual a sua história, mas parece ter crescido enfurnado.
Só que o trânsito pára, fatalmente, uma quadra abaixo do início da sua ilusão. E para isso é necessário um som, também. Nada mais adequado que Epic, do Faith No More para agüentar a fumaça preta do caminhão que insiste em andar colado ao seu lado.
Flanelinha, mendigo, fila e trombadinha são resumidos por Brasil, na voz de Cássia Eller. No esquema “clipão”, alternando fotogramas da sua vida ao ritmo da música. Sua versão gringo-freak fica com Devendra Benhart, Nice People. Aquela pra deixar meio atordoado, já.
Tem que bater ponto? Psycho Killer, Talking Heads. Once in a Lifetime também funciona, dependendo do dia e da maneira como você quer encarar a situação. Porque toda cena pode ser vista sob duas ópticas: a do drama e a da comédia. It’s up to you.
Hora do almoço e você teve que ficar digitando relatório. Tem tempo para correr até a barraca do japa e comer um pastel do que tiver, porque a esta hora, nem a xepa agrada. Especialmente para o momento: Interpol cantando nervosamente Evil. Porque tem a dose necessária de melancolia e conformismo, ao mesmo tempo que vibra uma revolta.
Antes de ir pra casa, depois da tarde caótica, você resolve parar para acrescentar uma pitada de loucura nesta vida chata com um pouco de álcool. Seu happy hour não estaria completo sem a alegria contagiante de She Don’t Use Jelly, do Flaming Lips. Só assim para alucinar e esquecer da vida.
Então sua mãe ligou e pediu para você passar nas Lojas Americanas do shopping e trazer pra casa meia dúzia de coisas que estavam em promoção. Shopping? Ai, inferno. Estacionar, loja cheia, fila no caixa... enfim. Quando você pisa nesta central de entretenimento urbana – blergh! – Kings of Leon, mesmo com jeitão caipira, toca especialmente pra você Velvet Snow. E você se sente ridículo.
Bora pra casa finalmente. Trânsito de novo, agora mais depressivo e cansativo. Perfeito para Day of the Lords, Joy Division.
Antes da balada, aquele cochilo de uma horinha. E pra levantar no pique de barranco, é recomendável ouvir Franz Ferdinand: Do You Want To. Só pra lembrar que sua vítima será lucky, lucky.
Na balada, Happy Mondays abriria lindamente com 24 Hour Party People.
Com isso você tem um CD de um post urbano de um dia que poderia ser, hoje, meu dia. Amanhã eu faria diferente, você também. E assim cantaria Death Cab for Cutie, ao final, A Movie Script Ending.

devaneio de: Sil Curiati | 4! E o cordão dos puxa-saco cada vez aumenta mais!