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Um amor tétrico

Sexta, 1 de Abril de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Betão amava Matilde. “Amava de paixão” - como somente os personagens de novela mexicana o sabem fazer. Betão era estivador, de corpo e modos. Bruto, mouro e inculto, mantinha um singelo altar para sua amada, no pequeno e honesto quarto que ocupava na pensão de dona Zoália. Oferendava a retratos de Matilde, poemas recortados de jornais, algumas flores de plástico e uma pequena escultura chinesa que ganhou de um primeiro-imediato do Zin Chun Xan – navio mercante chinês. Além de sempre levar na carteira uma foto dela.

Betão só encontrava Matilde durante o carnaval. Ela era como um demônio que encarnava em plena folia-de-momo para lhe tentar os sentidos e a razão. Diante dela, ele não conseguia manter, sequer, o mínimo de dignidade. No último ano, tentou não se render à perdição, à luxúria... à Matilde. Tudo em vão. Já na primeira noite, sucumbiu e esbaldou-se em Matilde, em uma paixão devastadora que durou até a manhã da Quarta de Cinzas.

Demorava alguns dias para recuperar as forças deixadas em Matilde. Demorava semanas para recuperar-se da vergonha que sentia quando lembrava das insensatezes que cometia, somente com Matilde. Jurava nunca mais sucumbir a ela. Nem que tivesse de deixar de pular o carnaval. Mas Betão era humano demais para cumprir esta promessa – ou qualquer outra.

Ele fez novena para os santos que conhecia, procurou benzedeira, terreiro, fez despacho em encruzilhadas, tudo em vão. Era chegar o carnaval e Betão tirava do armário a peruca morena, as meias calças, o corpete vermelho e o salto agulha. Caprichava na maquiagem, se embrulhava em paetês e lá ia Matilde lambuzar-se de Carnaval.


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