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Última Vez que fiz Alguma Coisa pela Primeira Vez

Terça, 17 de Outubro de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Minha mãe mandou eu ir a uma palestra de motivação. Ela há tempos critica meus modos boêmios, minha falta de rotina, minha dureza e meus palavrões em almoços familiares de domingo. Em lugar de convencê-la de que eu sou feliz assim mesmo ou de que estas palestras são pura falcatrua, mais fácil foi ir de fato à palestra. Mamãe patrocinou, tinha coffee-break e almoço incluídos e provavelmente haveria gatinhas perdidas procurando conforto de algum cara bagaceiro, mas cheio de lábia, como eu. E como o palestrante, um "notável guru paraguaio", dizia o panfleto. Guru paraguaio?, pensei.

Com toda essa motivação e um banza na cachola, lá fui eu. Topei logo de cara com um monte de marmanjo e mulher feia e uma faixa colorida dizendo "Quando foi a última vez que você fez alguma coisa pela primeira vez?". Sou obrigado a admitir que logo de cara pareceu mais interessante que a última que mamãe havia me enfiado, quando eu estava tentando parar de cheirar gasolina – um workshop com um tal que se dizia alquimista antroposófico assimismático mas que estava mais pra oportunista paranóico asmático. Mas, falando outra vez da última vez da primeira vez, o slogan besta da faixa me deixou ensimesmado, e ainda entorpecido pelo skank comecei a pensar sobre essa balela.

A princípio fiz como se fosse competição e escrevi tudo o que me vinha à cabeça e que eu estava fazendo pela primeira vez, me achando o gostosão com minhas anotações: hoje foi a primeira vez que limpo meleca na sola do sapado do vizinho; hoje é a primeira vez que vou a uma palestra que fala sobre a última vez que eu fiz alguma coisa pela primeira vez; e finalmente, hoje é a primeira vez que escrevo sobre a primeira vez.

Continuei por mais alguns minutos – admito a dificuldade em medir o tempo, era jamaicano – e a lista foi ficando cada vez mais idiota. Logo ponderei que talvez não fosse bem este o conceito de coisas feitas pela primeira vez que o tal guru paraguaio queria dizer.

Então pensei nos clássicos de a primeira vez, remoendo o passado e listando com certa empolgação: primeira vez que comi meleca de nariz, primeira punheta, primeira briga, primeiro porre, primeiro beijo, primeiro fora, primeira transa, primeiro zero, primeira comunhão. Só que o efeito psicológico e motivacional que me causou – novamente não sei se foi o uísque do coffee-break – foi reverso e comecei a ficar deprimido com essa nostalgia.

Resolvi reorientar minha lista com algumas coisas menos clássicas porém mais pessoais e significativas na minha breve e medíocre história: primeira vez que comi tremoço tirando a casquinha que nem uva, primeira vez que comi tremoço sem tirar a casquinha que nem homem, primeiro peido ao lado da namorada, primeiro peido ao lado da esposa, primeiro peido ao lado da amante; primeiro dente partido, primeiro coração partido, primeira vidraça de vizinho partida; primeira vez que bate no irmão mais velho, primeira vez que apanha do irmão mais novo; primeira vez que vê a mamãe pelada, primeira vez que vê a mamãe pelada com o papai; primeira vez que vê a mamãe pelada com o verdureiro; e assim a lista foi crescendo caoticamente. A verdade é que achei divertido paca ficar pensando nisso, mas não encontrei grande valia para minha vida, como era de se esperar desde o começo da história toda, como a mamãe esperava que ajudasse. Tem, no final das contas, um monte de primeiras vezes que poderiam dar final poético para este texto, mas a real é que, em se tratando de primeira vez, legal mesmo é ser peixe que não tem memória.


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