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Transplante de mitocôndriasSábado, 11 de Fevereiro de 2006* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Gonzaga já tinha alegado tudo. Morte do avô, enfarte do pai, crise depressiva, viagem de negócios, acidente de carro, assalto na rua, ônibus errado, relógio parado, salário atrasado, chuva imprevista e mais uma infinidade de desculpas esfarrapadas.Mas naquela noite seria muito difícil fugir. O cara havia armado uma armadilha para que ele não escapasse. Joãozinho viajou mais de 200 quilômetros até Santa Pedra do Pica Pau, onde Gonzaga estava morando - ou se escondendo - há mais de um ano. De alguma maneira, ele descobriu o endereço do trabalho do caloteiro que, há um ano e meio, lhe devia mil reais. Já tinha desistido de cobrar o juro, mas receber aquela grana tinha virado uma questão de honra. Afinal, emprestou o dinheiro contrariando a opinião de amigos e familiares. E hoje vivia com o estigma de imbecil perante todos. Ainda na infância, Gonzaga ganhou fama de mau pagador. Ficava devendo na cantina da escola, na padaria da esquina, no armazém, na venda, na mercearia e em outros estabelecimentos comerciais da cidade. E, quando era forçado a pagar a dívida, pegava uns trocos emprestados dos amigos para quitar o débito. Já Joãozinho era um rapaz trabalhador e com pouco estudo, mas muito boa praça. Gostava de ajudar todo mundo e, por isso, vivia cercado de interesseiros. Sua família e seus amigos tentavam alertá-lo, sempre que percebiam a aproximação de algum aproveitador. Quando Gonzaga pediu “um barão” emprestado para poder pagar o transplante de mitocôndrias da irmã, todos tentaram avisar que se tratava de um golpe. Mas o “lado humano” de Joãozinho falou mais alto e ele ignorou os conselhos. Sem nenhuma burocracia, entregou o dinheiro a Gonzaga. Este, com lágrimas nos olhos, deu um beijo no rosto do colega e disse que seria grato pelo resto da vida por salvar a vida da irmã. Gonzaga explicou que a irmãzinha morava em Cruz da Sandália, uma cidade afastada. Mas que, assim que ela se recuperasse do transplante, ele retornaria e quitaria a dívida em poucos dias. Nos primeiros meses, Joãozinho até rezava pela saúde da menina. Mas depois de um tempo começou a ficar desconfiado. Nove meses depois do empréstimo, descobriu por um parente distante de Gonzaga que ele nunca teve irmã. E foi aí que João começou a investigar. Descobriu onde o desgraçado morava e o seu local de trabalho. Começou a cobrá-lo com freqüência, mas sem sucesso. Então, viajou 200 quilômetros de carona num caminhão até Santa Pedra do Pica Pau e invadiu o escritório de advocacia Feitosa & Lombardo, onde Gonzaga trabalhava na parte de arquivos. Ao ouvir a voz de Joãozinho entrando no escritório, Gonzaga correu para o banheiro e se escondeu no armário de depósito. Mas o cobrador estava decidido. Disse para o pessoal do escritório que não sairia de lá enquanto o caloteiro não aparecesse, e começou a procurar por Gonzaga. Olhou embaixo das mesas, atrás das cortinas e vasculhou, até mesmo, os arquivos. Movido pela raiva, Joãozinho quebrou alguns objetos de decoração do escritório durante a busca. Os policiais chegaram alguns minutos depois. Sem questionar os motivos da invasão, algemaram o pobre homem e o levaram para delegacia no camburão. Após esclarecer o ocorrido e ficar um tempo detido, Joãozinho foi liberado. Pensou em voltar ao escritório onde Gonzaga trabalhava, mas acabou desistindo. E de nada adiantaria ter ido. Ao deixar o armário do banheiro, o malandro disse ao chefe que não agüentava mais dever aquele dinheiro e que já havia pensado até em suicídio. Contou que precisou da grana para liberar a irmã de um seqüestro, mas que nunca conseguiu quitar o empréstimo. Sensibilizado, o patrão propôs um adiantamento salarial ao funcionário, que se comprometeu em pagar Joãozinho naquele mesmo dia. Menos de duas horas depois, Gonzaga pegou o primeiro ônibus que saiu da rodoviária e fugiu para o longínquo município de Cruz da Sandália. Disse estar com uma doença rara no ribossomo, e passou a morar de favor na casa do primo de segundo grau. |