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Tóquio, 05 de Julho de 2005.

Sexta, 22 de Julho de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Querida Suzana,

Finalmente consigo te escrever. Este silêncio, de quase dois anos, não foi intencional. Quando vim para o Japão, com aquela garantia de emprego de garçom, era mentira. Ou melhor, o emprego existia, mas não era de garçom. O senhor Tanakashi alegou que o restaurante de alto nível que eu iria trabalhar havia fechado mas, tinha outro emprego pra mim: lavador de pratos. Até aí nada mal. Porém, o dinheiro era pouco e, em seis meses, só consegui pagar a passagem que devia ao senhor Tanakashi.

Depois disso tive que me recolocar. O hospital em que eu lavava pratos foi fechado. Dizem que por maus-tratos aos deficientes mentais. Justo eu fui mandado embora. Justo eu, que nem sabia que era um hospital para deficientes mentais. Então, o senhor Tanakashi me arranjou em um restaurante universitário. Desta vez eu não lavava os pratos, mas sim, os banheiros. Comida japonesa realmente deve limpar o organismo - se é que você me entende. Certo dia, um garoto que fazia medicina reprovou em não sei qual matéria. Então, como é tradição aqui no Japão, resolveu se matar. Até aí tudo bem. Mas, tinha que ser justo no meu banheiro? Justo com um colete de explosivos amarrado ao corpo? Era o fim do meu emprego, do banheiro, do restaurante, e de dois quarteirões inteiros. Só não morri porque estava curtindo a minha folga mensal.

Tanakashi passou a ter sérios problemas para achar um novo emprego pra mim. Fiquei quase quatro meses sem sair do quartinho que ele me arranjou por boa parte do que eu ganhava. Enfim ele conseguiu! Um amigo produtor de filmes – Tanakashi é um homem muito influente por aqui – precisava de alguém novo para fazer algumas pontas em produções pornôs de baixo orçamento. O salário não era ruim e logo eu estava conseguindo agradar meus novos patrões. Tudo ia muito bem. Até que tentamos gravar uma cena de sexo com um lêmure no Zoológico de Tóquio e fomos presos. Na verdade eu fui preso. A equipe conseguiu fugir correndo. Não tive a mesma sorte. Correr com as calças arriadas e com um lêmure de quarenta quilos enganchado nas costas foi impossível. Fiz o que pude. Me alcançaram fácil.

Gastei todo o meu dinheiro com a fiança. Então o senhor Tanakashi conseguiu me arranjar um bom emprego. No sul de Tóquio. Em uma espécie de mosteiro. Que depois fiquei sabendo se tratar de uma espécie de academia preparatória e formadora de lutadores de sumô. Claro que tive de começar por baixo, limpando os banheiros. Como eu já era prático nisso - graças ao emprego naquele restaurante universitário que explodiu - logo fui promovido a limpador de pratos. Função que me rendeu duas vezes seguidas o título de Funcionário do Mês – graças à prática que adquiri no hospital de deficientes mentais. Não tardou e veio a promoção para a função que o ocupo hoje: Auxiliar de Higienizador de Lutadores Acima dos Duzentos Quilos. Minha função não é muito simples, nem é trabalho fácil. Um lutador de duzentos quilos não alcança boa parte de seu corpo e precisa que suas milhares de dobras sejam muito bem limpas. Então, cabe aos higienizadores e seus auxiliares fazer esta limpeza. Parece nojento, mas você acaba se acostumando.

Um lutador, nos períodos entre as lutas, precisa de meditação e não pode ir pra casa. Ele precisa ficar concentrado durante meses. Aqui no templo não tem mulher e - como qualquer homem - os lutadores precisam extravasar seus hormônios - se é que você me entende. Graças a minha experiência adquirida com os filmes que fiz, tenho ajudado muito nisso. Tanto que – tenho certeza - logo, logo, eu vou conseguir uma promoção e me tornar higienizador sênior ou até, quem sabe, um higienizador master. Agora então que comecei a me vestir de gueixa a coisa tem melhorado muito pra mim.

Estou com muitas saudades do Brasil, de você, e de todos aí. Espero voltar assim que conseguir pagar a dívida que contraí ao adquirir todos vestidos e a maquiagem que tenho usado. Além, é claro, de quitar a cirurgia de implante de silicone que pus nos peitos e, tem me rendido um extra formidável.

Te amo muito, e morro de saudades.

Beijos, do sempre seu:

Hashimoto.


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