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Todas as mulheres do mundo

Quinta, 16 de Dezembro de 2004

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Não era de reclamar dos outros ou do que quer que fosse. Tinha fobias de confusões, por isso sempre falava pouco. Palavras de concordância, vestidas em um tom sereno, quase inaudível aos ouvidos humanos. Tímido e discreto como os Pés-grandes, se estes existissem. Ele passaria facilmente despercebido se não fossem os mais de cento e vinte quilos distribuídos no metro e noventa de altura. Não gostava de grandes noitadas, mas ia, "para acompanhar os amigos" (os dois que tinha). Sua vontade, era sempre ficar em casa, em meio a sua coleção de selos, revistas, moedas, latinhas e Zoraide, a doce Zoraide, iguana e confidente.

Seu nome era, ou melhor: é, Flávio! se não for Jorge - Ah! se ao menos o Alzheimer permitisse que eu lembrasse com exatidão... De toda forma, alguma coisa aqui pode ser incompleta, mas nada é inventado. Nem o fato de, naquela noite, terem colocado algo na água tônica de Flávio (ou seria Jorge?). Noutra pessoa ele se transformou. Foi como se ele recebesse uma entidade, que por sinal, dançava que era uma beleza. Ele tinha todos os requisitos para assumir o lugar da globeleza para o próximo carnaval, se esta pudesse ser homem, albino, careca, gordo e morar em São Paulo.

O fato é que a alegria do rapaz era enorme, e contagiante. Por algumas horas, Flávio, digo, Jorge, se tornou o espetáculo bizarro e nonsense mais barato da noite paulistana. Era como se um quadro de Dalí ganhasse formas e movimento. Ou então, como estar diante do mamute daquela musiqueta, sabem? aquela... bem, a esta altura pouco sobrou da timidez, do recato e da roupa, do rapaz. Já tinha plena certeza de ser (como acontece com todos os bêbados) o mais bonito, forte e espetacular ser da noite. Então começou a mexer com todas as mulheres que passavam ao redor (como acontece com todos os babados).

Chega para uma e dispara:

- Dai Gatinha, quer o telefone do gostosão aqui? - Apertando os mamilos com cara de sexy.
- Nem morta! - Seguindo andando pela boate...
- Depois não adianta pedir, hein! - Gritou, já virando para outra que passava, e:

- Oi amorzinho, vem cá que te mostro o requebra... - Dando aquela reboladinha, com direito a um "bate-bunda" quase desloca o quadril da pequena.
- Nossa que bruto! Cai fora... - Empurrando-o

- É isso mesmo! Aqui o sistema é bruto... Mas o movimento é sexy! - Rodopiando e pegando outra pela cintura e numa enconchada no melhor estilo "vem cá minha nêga"...

Levou um tapão na cara que estralou. De quebra, o namorado da moça tratou de mandá-lo passar férias em uma CTI. Depois disso, João (ou Flávio, ou Jorge), nunca mais saiu a noite, e também, passou a comer sempre de canudinho.



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