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Toda a culpa é do domingo

Sexta, 22 de Abril de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

O Ignácio de Loyola Brandão escreveu há alguns anos um livro chamado O homem que odiava a segunda-feira. Pelo que se lê, parece que os personagens de cada história são uma espécie de alter ego do autor. Todos eles colocam na segunda-feira a culpa de todos os males do mundo e principalmente os de suas vidas.

Eu acho que o Loyola e os personagens estão errados. O problema não é da segunda-feira em si. Todo o problema existe graças ao domingo. Principalmente por causa da tarde e da noite do domingo. Eles funcionam como um “corredor da morte” pelo qual todos passam à espera da execução sem clemência da segunda-feira.

Existe uma orquestração dos deuses, de Murphy (o da lei, não o Eddie) ou de sei lá o quê para que tudo dê errado no domingo.

A primeira opção para o descanso seria a televisão. Mas como é possível encarar Didi, Gugu, Faustão, João Dória, Milton Neves, Zeca Camargo, Glória Maria, Sílvio Santos, Pânico na TV, Manhattan Connection e Mosaico num mesmo dia?

Aí você decide que vai se desvencilhar da armadilha da televisão. É quando surgem ainda mais problemas.

Se quiser ir a um parque, vai ter um cara na frente do Ibirapuera cobrando vinte reais para que você estacione o carro.

Se for a um jogo de futebol, com certeza seu time vai sair derrotado, seja ele qual for.

Se a decisão for o cinema, ele vai estar lotado. Você vai se sentar na primeira fileira, e o casal ao lado vai ficar a exibição toda comendo pipoca e trocando beijos barulhentos, que vão encobrir o som dolby da sala.

Se for uma viagem, pior ainda: você vai ficar por oito horas na Rio–Santos tentando voltar de Maresias.

Mesmo a piscina do condomínio, uma opção conservadora, nas tardes de domingo está sempre lotada de pentelhos pulando e mijando na água.

Por isso mesmo, é melhor acabar com o domingo. Ou ficar na cama o dia todo. O sacrifício da segunda-feira vai ser direto, sem um dia de péssimas expectativas.




por Kleber Carrilho | Comentários