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TemasSexta, 8 de Setembro de 2006* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Dia desses, às duas da madrugada, recebi um telefonema estranho. Era Vanessa Marques, uma das editoras-manda-chuvas deste sítio. Disse que eu precisava comparecer em meia hora num endereço suspeito do centro da cidade. Minha ausência poderia acarretar em demissão sumária e conseqüente interrupção dos vencimentos que percebia pelas colaborações bissemanais. Sem escolha, coloquei a minha melhor roupa, arranquei com o meu melhor carro e em vinte minutos estava num estranho prédio da rua 25 de Março.Chineses gritando nos corredores, coreanos assassinados dentro dos elevadores e bolivianos costurando sob chibatadas faziam parte da paisagem do local. Procurei a sala 48. Na porta, um aviso: “entre sem bater”. Abri. Naquele momento, entendi do que se tratava. Ali estava reunida a alta cópula (ou seria cúpula?) morfínica. Sentados ao redor de uma távola oval, estavam os editores com suas togas nas costas e espadas em punho. Disseram-me que aquela era a reunião de definição dos temas semanais do Morfina. E, por mais que invocassem os poderes com as espadas, os álcoois e os psicotrópicos, não conseguiam sair de tema: Tema. Precisavam da minha ajuda, do meu cérebro avantajado, para definir os temas para o terceiro ano de vida da melhor experiência literária da Internet. O mundo girou sob meus pés. Não podia acreditar. Eu, um reles colaborador, tinha sido convocado para aquele momento sublime, em que os gênios da língua se reúnem para definir o futuro da humanidade. Justo eu? Que mais de dez vezes questionei publicamente nos meus textos a pertinência dos temas escolhidos? Temas e temas vieram à minha cabeça. E eu os vomitava sobre a mesa, fazendo com que a taquígrafa (sim, eles têm uma taquígrafa) quase não conseguisse anotar. Calendário, lavadora, filme B, supositório, suspensório, poema, taquigrafia, polietileno, poliuretano, polissílaba, proparoxítona, construção, solução, enrolação, submissão, calefação, interação, opinião. Notei que eu estava sem calça. Como assim? Como não tinha notado antes? Mas o brainstorm de idéias geniais continuava. Lençol, cama, travesseiro, colchão, quarto, triiiiiiim, triiiiiiim, triiiiiiiim, despertador... Triiiiiiim, triiiiiiim. Despertador. Na verdade, era um sonho. Eu deveria ter desconfiado quando notei que estava sem calça. Afinal, em todos os sonhos eu estou sem calça. Que coisa estranha... Será um desvio psicológico? Eu também deveria ter desconfiado da situação. Os editores do Morfina jamais me deixariam propor grandes idéias. Eles nos escravizam com os temas, nos fazem infelizes. São ditadores dos nossos pensamentos, da nossa inspiração, da nossa transpiração. Imagine o que deve ser a verdadeira reunião da definição de temas. Mulheres parcamente vestidas, rituais demoníacos, vodus dos colaboradores sendo espetados pelas mãos inescrupulosas dos tiranos. Por isso, conclamo a todos para que nos livremos do domínio do mal. Vamos deixar de obedecer aos temas. Vamos falar livres, leves e soltos sobre o que quisermos, sobre nossas paixões. Isso é meio gay, mas tudo bem. E nada melhor do que parafrasear o Marx, que deve também ser parente da Vanessa Marques (mudaram a grafia só para tentar nos enganar). “Um espectro ronda o Morfina: o espectro dos editores. Colaboradores do mundo, uni-vos.” |