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Tem japonês no samba

Terça, 21 de Junho de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Apaixonado por futebol, Kawamoto deixou o Japão para tentar carreira como centrovante do Santos. Sem sucesso, como todos os japoneses que passaram pelo time da Baixada Santista, Kawamoto investiu em sua segunda paixão, o karaokê.

A terceira paixão de Kawamoto era a bossa nova. Mas ninguém cantava bossa nova no Bossa Nova, o karaokê que ele abriu no Gonzaga para divertir turistas em veraneio.

Estranhamente, todos que se propunham a cantar bossa nova no Bossa Nova não passavam do “é pedra”, do “cheia de graça”, do “felicidade, sim” ou do “sem ela não pode ser”. Caiam duros no palquinho antes de terminar a primeira estrofe.

O Bossa Nova era a farra dos sertanejos e pagodeiros, que se esbaldavam tão logo mais um corpo de um amante do samba de apartamento era retirado do local.

Kawamoto era tão fã de bossa nova que mantinha duas pastas de músicas no Bossa Nova, uma só para bossa nova e uma para “outras coisas”.

Na pasta da bossa nova, Kawamoto passou veneno nas páginas. O veneno passava dos dedos de quem a folheava para a boca, técnica da Inquisição.

Isso foi depois que Kawamoto descobriu sua quarta paixão, o Candomblé. Desde que ele passou a “receber” o João Gilberto, ele não suportava mais os desafinados.



Mentex e Costela | 4 comentários