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Surubinha
Surubinha
Terça, 31 de Janeiro de 2006
* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais
O Bento já nem se lembrava mais de que tinha dado seu telefone para a morena do rebolado maroto um ano antes. Também não se lembrava de que tinha beijado a morena do rebolado maroto. E também não se lembrava de que a morena do rebolado maroto existia.
Até que o velho telefone celular do Bento, que havia muito tempo não recebia uma única chamada, finalmente voltou a tocar.
– Alô.
Do outro lado respondeu uma voz que o Bento achou muito sexy, entrecortada por pequenas falhas na ligação.
– Oi, Bento. Você se lembra de mim? Sou aquela morena do rebolado maroto. A gente ficou no ano passado. Estou ligando para saber se você gostaria de vir até a minha casa me comer numa surubinha.
Bento engoliu na mesma hora o apito que segurava no canto da boca, de susto. Tentou falar alguma coisa, mas de primeira só saíram apitos. Mesmo com a voz sibilante, conseguiu pedir o endereço do local.
– Eu vou, eu vou, eu vou. Eu sou primeiro, eu sou primeiro, eu sou primeiro – finalizou, já desligando o telefone.
Que felicidade. O Bento nunca havia participado de uma suruba. Mas sempre que imaginava uma colocava a seleção feminina de vôlei da Itália no meio.
É claro que o time das italianas costumava fazer muita suruba antes e depois dos jogos, disso ele sabia. Originalmente – pensava Bento – havia alguma preocupação esportiva quando se convocava o time. Mas era mais do que óbvio que todas aquelas mulheres charmosas não eram chamadas à toa.
Era só bater na porta do vestiário antes ou depois das partidas. Quem soubesse a senha secreta – “campinas-aracaju de trem” – teria acesso a uma das maiores e melhores orgias do planeta. E tudo ali, num inofensivo ginásio.
Já sentindo uma inquietação sob as calças, Bento deixou de lado as levantadoras, pontas e líberos para seguir para o endereço indicado. “Que voz doce”, lembrava, enquanto a inquietação já se fazia aparente.
Estranhou que o local indicado fosse um restaurante de comida chinesa. Entrou e procurou reparar no rebolado de todas as presentes. Nada de maroto.
Aproximou-se da moça no caixa. Parecia a imagem de Buda. Nada de maroto.
– Oi. Por favor, queria saber se por acaso alguém daqui ligou para mim. Tipo uma morena bem bonita...
– Qual é o seu nome?
– Bento.
– Ah, então você é o surdinho?
– Surdinho?!
– Ligamos para confirmar seu pedido. Era só para saber se era mesmo refogado e risoto, tudo muito bem passado. Aproveitamos para oferecer nosso delicioso surubim. Mas você ficou maluco do outro lado, começou a assobiar e disse que vinha aqui buscar tudo pessoalmente.
– Refogado e risoto? Tudo bem passado? Surubim? Quer dizer que não tem rebolado maroto, não ficamos no ano passado e nada de surubinha? – retrucou Bento, que havia esquecido que havia feito o pedido.
– Olha aqui, vou chamar o Shazan, nosso cozinheiro, hein? Ele não é de brincadeiras e tem fama de colocar de tudo no panelão do yakissoba. Não vai ligar de cortar fora esse pedacinho de carne seca que você têm aí.
Bento deixou o restaurante cabisbaixo, triste. Maldito celular vagabundo.
No caminho para casa, comprou ingressos para um jogo da Superliga feminina de vôlei. Podia não ser a seleção italiana, mas ele já não estava em condições de escolher suruba. E a senha para o vestiário do time de Catanduva ele já sabia: “Eu sou o inspetor Closeau”. Não tinha como dar errado.
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