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Sobre CambistasQuarta, 30 de Agosto de 2006* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Antes mesmo de chegar na Alemanha encontrei o primeiro cambista da viagem. No aeroporto de Zurich, durante a escala na Suica, um sujeito se aproximou e disse que tinha ingressos para a estreia do Brasil na Copa, contra a Croacia. Como eu nao fui contemplado pelo sorteio da FIFA com nenhum ingresso para assistir aos jogos do Brasil, mostrei interesse. O cara entao pediu a bagatela de 2 mil euros pelo ticket. Respondi para ele que esse valor era maior do que o que eu tinha para gastar na viagem toda. Brasileiro, bom de papo, o rapaz tentou argumentar que era um ingresso especial com um posicionamento privilegiado no estadio, alem de comida e bebida a vontade durante a partida. Mais uma vez contei para ele a minha situacao. Se eu pagasse esse valor para comer a vontade nos 90 minutos do jogo, nao teria mais como comer nos outros 25 dias da viagem. O cara, que se auto-considerava promotor de vendas, agente de viagem e realizador de sonhos alheios, disse que por menos de 1.800 euros nao vendia nenhum dos 13 ingressos que tinha. Ele nao explicou muito bem como tinha conseguido aqueles ticketes e ainda soltou a seguinte frase: "sera que vao me confundir com cambista na Alemanha?". Dias depois encontrei esse cara numa festa em Berlin. Segundo ele, todos os ingressos foram vendidos por 1.500 euros cada. E nem uma cervejinha ele me pagou para comemorar o sucesso das vendas... Continuei tentando arrumar ingresso. No dia do jogo do Brasil contra a Croacia, cheguei cedo no estadio. O preco medio era de 500 a 600 euros para os lugares menos centrais do estadio. Os anos de experiencia na porta do Morumbi me ajudaram e faltando apenas 30 minutos para o inicio da partida convenci o cambista de que eu nao pagaria nem um centavo a mais do que 300 euros, o que ja e um absurdo. O cara chorou, chorou, mas vendeu. Que ingresso bonito; tirei ate foto... Mas novamente tinha algo estranho. No lugar onde deveria estar escrito o meu nome (porque os ingressos da Copa sao nominais) ou no caso o nome do cambista (porque teoricamente aquele ticket era dele) aparecia apenas a sigla da FIFA. Fiquei com um pouco de receio de me dar mal, mas nao fui barrado na entrada. Nao vi nenhum cambista alemao na porta do estadio. Em compensacao, brasileiros, mexicanos e italianos tem aos montes. E a tatica de venda e curiosa. Muita gente que quer comprar ingressos ergue placas com o seguinte dizer: "i need ticket" (algo como "eu preciso de ingressos"). So que apos alguns minutos na frente do estadio olimpico de berlin, percebi que muitos dos que erguiam essa plaquinha estavam, na verdade, vendendo ingressos e nao comprando. Era uma maneira para nao dar na cara o ato ilicito que praticavam. Assisti nos teloes aos outros dois jogos do Brasil na primeira fase. Fugi dos cambistas para resistir a tentacao. Mas no jogo das oitavas de final, contra Gana, nao aguentei. Peguei as ultimas economias da carteira e fui para a porta do estadio na cidade de Dortmound. Paguei 200 euros pelo ingresso. Dei sorte nao so pelo preco - mais barato do que o primeiro confronto - mas porque fiquei atras do gol onde o Ronaldo "gordo" pedalou, driblou o goleiro e marcou aquele golaco. A torcida gritava: "Ih fudeu, o Ronaldo emagreceu; ih fudeu, o Ronaldo emagreceu". Ainda teve o gol do Adriano daquele lado, numa jogada bonita. Sai do estadio feliz e absolutamente sem dinheiro. Ja estou pensando no que vou fazer para conseguir sobreviver por aqui nos proximos dias. Nao trouxe nada de muito valor, entao acho que vou aproveitar que o Brasil esta na moda na Alemanha e tentar vender minhas roupas. Nao acredito que sera facil achar alguem que queira camisas, bermudas e outras pecas usadas e com cheiro desagradavel, mas pelo menos a tatica para a venda eu ja aprendi com os cambistas. Ainda hoje vou preparar uma plaquinha escrito "i need clothes".
*Rogéria é colunista do Morfs, e tá lá na Alemanha. A viagem foi paga pelo Castor de Andrade. |