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Só um BanhoTerça, 7 de Março de 2006* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Depois de um dia de trabalho que se estendeu (muito) mais do que devia, ela finalmente chegou em seu apartamento. Um apartamento do tamanho exato para uma jovem executiva que trabalha sozinha e gosta de receber os amigos em casa. É claro que ela não parou para pensar nisso, muito menos na decoração, quando foi para seu quarto em busca de um bom banho, largando a bolsa no meio do caminho, tirando os sapatos e os jogando no canto do quarto.Tirou a saia e a blusa. Ficou admirando seu corpo por alguns breves segundos, mais uma vez sem se dar conta de que pensava que as mensalidades da academia valeram cada centavo investido. A lingerie que usava ficou jogada ao lado da porta que leva ao banheiro. Deixou uma toalha limpa ao alcance das mãos e entrou no box. Ligou o chuveiro e as primeiras gotas de água caíram em seu rosto trazendo uma sensação de relaxamento que era quase insuportável. Enquanto deixava a água escorrer por todo o seu corpo e molhava seus cabelos que caíam à altura dos ombros pensava como conseguia suportar a rotina do trabalho. Claro que suas prioridades estavam muito bem definidas, seus planos claramente delineados, todas as perspectivas claramente postas à mesa. Enquanto espalhava o xampu e massageava o couro cabeludo com dedos fortes e delicados retomava cada passo, da faculdade, que cursou no período noturno para poder trabalhar durante o dia, ao estágio, a assistência e a tão sonhada gerência. “Gerente aos 26 anos. Nada mal mesmo”, pensava enquanto tirava os últimos restos de espuma dos cabelos negros. Pegou o sabonete e enquanto passava por seus braços notou, enquanto a espuma se formava, que estava nitidamente pálida. Quanto tempo desde as últimas férias? Quatro, cinco anos? Resolveu que não venderia suas próximas férias. O verão estava chegando mesmo, ir para a praia faria muito bem. Talvez fizesse o implante antes disso. Ao espalhar a espuma por seus seios tentou chegar numa conclusão sobre o assunto. Não que eles fossem pequenos, mas um pouquinho mais de volume não faria mal. Ou faria? Pra que tentar mudar? Dizem que em time que está vencendo não se mexe. Mas um pouquinho mais de ginástica sem dúvida seria necessário. A barriga não estava ainda do jeito que queria. Pelo menos o piercing no umbigo tinha tido a coragem de fazer. Uma pendência a menos. Enquanto esfregava as costas lembrou do vestido que comprou no dia anterior. Uma das melhores amigas ia casar e o vestido longo, cinza, simples mas elegante, que deixava praticamente todas as costas nuas ia chamar a atenção. Não que ela fizesse questão, mas todos gostamos de uma massagem no ego de vez em quando. “Meu Deus... A Ana vai casar...”. Elas tinham a mesma idade. Mas Ana sempre sonhou com o casamento. Mais uma vez a barriga. Ela não teria deixado de comer seus chocolates e sorvetes para casar agora e pensar em filhos. Sexo por enquanto não era feito com propósitos reprodutivos. Sexo só pelo prazer sim, porque não? Enquanto limpava todos os pequenos pecados da carne não podia deixar de notar uma pequena ponta de lascívia surgindo ao passar o sabonete entre suas pernas. O dia seguinte é sexta-feira e ele com certeza iria ligar. Iam ficar na cama a noite toda, experimentando o que pudesse ser experimentado. Suas pernas teriam muito que agüentar. E pensar que todos, inclusive a família, chamavam suas pernas de gambitos. Ela andou muito desde então. E correu muito também. Lembrou-se de uma de suas férias no tempo de faculdade, quando foi para o interior de Minas Gerais. Andou muito. Só trilhas por lugares lindos, rios, cachoeiras. “Definitivamente preciso de mais férias”. Seus pés merecem atenção especial durante o banho. Muitos acham os pés uma parte particularmente sem graça do corpo humano. Ela praticamente os idolatra. Coitados, passam a vida inteira nos suportando, nos levando para todo canto. Ainda temos a coragem de escondê-los, trancafiá-los dentro de tênis e sapatos. Ela os massageou com carinho. Está na hora de pintar as unhas. Aproveitou a água caindo por mais alguns instantes. Segundos. Mas parece que uma vida inteira se passou.
Não dêem muita atenção ao
Tiago Barizon | 2 pessoas pitacaram
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