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Só por HojeSegunda, 27 de Setembro de 2004* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais O que se pode esperar de uma pessoa que aos sete anos de idade descobriu que elixir paregórico (sim, aquele remedinho para dor de barriga) dava barato e adormecia até o cotovelo? As doses de vinte gotas pararam de fazer efeito em pouco mais de uma semana de uso contínuo e a conta da farmácia começou a ocupar cerca de três páginas antes que os pais dessa pobre criancinha viciada descobrissem que havia algo errado, mas o estrago já tinha sido feito.Sou uma farsa. Depois dessa primeira experiência com drogas, passei minha adolescência inteira tentando ser diferente daquela molecada que freqüentava domingueiras com um baseado mal acabado no bolso, que passava de mão em mão lá pelo meio da noite e fazia todo mundo ficar "doidão, puxa, muito louco, puxa, preciso de um chocolate, puxa, vocês são muito legais, puxa, o que é aquela luz ali?, quá, quá, quá". Tem coisa mais ridícula que um adolescente se achando muito adulto porque não se interessa pelas mesmas coisas que os outros? Era eu, a ridícula. Lá pelos vinte e uns, decidi que a vida era uma merda e precisava viver aquelas coisas todas. E aí eu já achava o "maior barato andar com essa erva toda na bolsa sem medo, puxa, preciso de um chocolate, puxa, muito louco, puxa, eu sou muito legal, puxa, o que são todas aquelas luzes ali?, quá, quá, quá", só para descobrir que aquelas luzes vinham da blitz na Anchieta e eu estava fodida, completamente fodida. Tem coisa mais ridícula que um adulto se achando muito adolescente porque consegue curtir as mesmas coisas que a sobrinha dez anos mais nova? E ainda assim você que ter novas experiências. Ficar doidona cheirando benzina? Que nada. Doidona de verdade você fica depois de vomitar coisas verdes por cinco horas seguidas, após se dopar com a tal benzina, ir parar no hospital, onde te botam em uma sala com o teto espelhado e tudo roda, tudo, tudo, tudo, e você fica se perguntando em que diabo de motel fuleiro é esse que você foi parar e, porra, esse cara de branco... você trepou com um pai de santo? Chega uma hora em que você não tem mais que chocar seus pais, amigos e psicólogos, então perde a graça e você adquire vícios menos agressivos aos olhos do mundo. Por exemplo: há um vício melhor do que comer batatas fritas lambuzadas em ovos fritos com gema mole? O risco é quase tão grande quanto qualquer droga pesada, pelo menos a longo prazo. Colesterol mata. E flatulência também, só que esse é um risco para terceiros. Isso para não falar das alucinações provocadas, especialmente se você desabar como um hipopótamo na cama logo em seguida. Mas esse vício é aceito pela sociedade e você não pode ser preso apenas por arrotar o abecedário inteiro durante uma semana.
texto livre de
Juliana Pescuma | Comentários
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