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Silas e Marieta

Segunda, 5 de Dezembro de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Na década de 60, Silas ficou muitos meses desempregado até que, quando já entrava em desespero, conseguiu arrumar um emprego como redator de chistes e charadas em um pequeno jornal.

Os tempos eram outros e a imprensa marrom na época tripudiava em cima da tal revolução feminina que tomava as ruas, mundo afora.

Meio contrariado, Silas tinha que bolar baboseiras do tipo: - Por que mulher é igual a pilha? Porque gastou, trocou. Ou então: Qual a diferença entre o espelho e a mulher? O espelho reflete sem falar e a mulher fala sem refletir. Essas coisas, que para ele nada significavam.

Entretanto, quem não gostava nada daquilo era a mulherada, claro. Marieta, a mulher de Silas, começou a sentir-se pressionada pelas amigas. - Como é que você permite? Dê uma prensa neste cafajeste - faziam coro.

Embora Marieta tivesse consciência de que o marido tinha que sustentá-los de algum modo e que, no fundo, ele não pensava daquele modo, foi falar com ele.

- Silas, não tem como você deixar de escrever estas coisas? Por que não passa a fazer piadas sobre outro assunto?

O homem se defendia, explicando que não tinha escolha, que o editor gostava daquela linha de humor, etc e tal.

Mas não adiantava e Marieta prometeu que ou Silas dava um jeito ou teria que dormir no sofá.
...

Três semanas dormindo no sofá fizeram de Silas um cara diferente. Agora suas piadinhas estavam mais afiadas e maldosas: O que uma camisinha e sua mulher têm em comum? Ambas passam mais tempo na sua carteira do que no seu pau.

Transformado, ele passou a crer em suas charadas.

Por outro lado, Marieta também endureceu. Entrou para a LLL - Liga pela Liberdade das Libélulas, uma organização radical e com o pé na luta armada.

Certo dia, Silas chegou do trabalho muito cansado e já ia deitando no velho sofá. Estranhou a casa escura e silenciosa quando percebeu a silhueta de Marieta na cozinha. Ao dar um passo adiante, a mulher entrou na sala e dirigiu-se ao marido, o que não fazia há um mês.

- Você prefere insistir com suas charadas nojentas e perder nosso casamento - disse ela.

- Olha, acho que você deveria pensar nisso como trabalho e abandonar estas idéias idiotas das suas amigas - respondeu.

- Estou avisando que você irá se arrepender se não parar com tudo isto - insistiu Marieta.

- Não tenho medo de ameaças, sua maluca. E não vou parar, pois agora peguei gosto pela coisa. Quer ouvir a que inventei hoje? - contra-atacou ele.

- Cale-se, não quero ouvir nada!

- Você sabe por que as mulheres se casam de branco?

- Não quero saber, você vai pagar por isso!!!

- Para combinar com a geladeira, a máquina de lavar roupa, a batedeira, o liquidificador...

- Nããããããããããããoooooooooo!!!!

Num ato extremo, Marieta riscou um fósforo da caixa que trazia escondida às costas e tacou fogo no sutiã que pouco antes havia embebido em fluido de isqueiro.

Só esqueceu de tirá-lo. Erro fatal, aliás, pois em segundos virou uma bola de fogo e caiu no tapete, causando um incêndio na casa toda.

Silas, atônito, conseguiu pular pela janela e salvar-se, antes que tudo fosse consumido pelas chamas.

No chão do jardim, meio sufocado pela fumaça, ainda pensou: -Tá explicada a ascendência portuguesa da Marieta.

Dia seguinte, a história saiu na primeira página.



escrevi e saí correndo: Fábio Inverídico | Um comentário