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Seu Cacique

Quarta, 10 de Maio de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Um monte de indinhos correndo feito malucos em volta do carro. No meio deles, uma criança loirinha, loirinha. Ê indiada safada, viu! Foi assim que eu e o Marquinhos fomos recebidos em uma aldeia indígena localizada no Riacho Grande, em São Bernardo. Ali, bem pertinho de Parelheiros.

Aqui, só vou fazer uma pausa para explicar que catzo estávamos fazendo em uma aldeia indígena. E, melhor do que isso, como chegamos até lá.

Pelo que me lembro, precisávamos compensar um trabalho de faculdade qualquer que deixamos de entregar no prazo. E o professor, que estava querendo nos foder, nos despachou para entrevistar os índios locais. Uns tais de krukutus.

Para salvar o ano, a gente se mandou para lá. No caminho, nos perdemos muito. Mas muito mesmo. Depois de atravessarmos uma balsa e pegarmos cinco cipós, o Marquinhos viu uma placa com os seguintes dizeres:

Aldeia Krukutu. Caminho Novo – esquerda. Caminho Velho – direita.

Rapidamente, nos mandamos para o caminho novo.

Três horas depois, quando a mata se fechou de vez, descobrimos que estávamos perdidos. O fato de ter assistido Bruxa de Blair uns dias antes contribuiu para que resolvêssemos pedir informações.

Depois de um bom tempo, encontramos um capial no meio do nada.

“Krututu? Ah, conheço. Eu levo vocês até lá perto.”

No caminho, o rapaz nos contou que tinha matado uns cabras aí e estava foragido lá no Riacho. Eu mijei nas calças. Marquinhos, cagou.

Mas o cara até que foi gente fina. Levou-nos até perto da aldeia. Ou não, porque depois que ele desceu, continuamos perdidos.

Após muito tempo sem cruzar com outra alma viva, avistamos de longe um trator. Fomos até lá e chamamos o rapaz que o manejava. Quando ele chegou perto do carro, percebi que o que ele carregava não era uma antena parabólica, mas sim um facão. Desse tamanho mesmo. Marquinhos mijou nas calças. Dessa vez, fui eu que caguei.

Fedidos e debaixo da chuva, seguimos o caminho indicado pelo rapaz do facão.

“Segue reto e vira as dereita. Depois, sobe até o top e ói, vai toda vida, viu”.

Fomos até o fim da vida e, quando chegamos lá, demos carona para mais um bandido. Àquela altura, nem nos preocupamos mais. Já estávamos cagados e mijados mesmo. Quando ele desceu, seguimos reto e avistamos uma placa.

Aldeia Krukutu. Caminho Novo – esquerda. Caminho Velho – direita.

Dessa vez, fomos pelo velho. Dois minutos depois, estranhamente, estávamos na aldeia. Foi quando os indinhos (e o loirinho) nos receberam.

Mesmo cansado da viagem, Marquinhos usou seu feeling apurado para identificar de longe o líder do grupo. A camisa com os dizeres “Ora que Melhora” e o boné das Casas Bahia que o senhor usava ajudaram na identificação. Eram as melhores roupas da aldeia.

Depois de algumas trocas de olhares em silêncio, Marquinhos usou uma saudação estranha para quebrar o gelo.

“Boa tarde Seu Cacique. Viemos fazer uma reportagem, coisa e tal, tal e coisa...”

O Seu Cacique até que foi simpaticão, mas disse que a gente não podia gravar. Disse ainda que seríamos presos se fizéssemos isso, porque ele vivia feito mendigo, que a Funai tinha tirado o telefone deles com a justificativa que a indiada não parava de ligar e essas coisas todas.

Repórteres iniciantes e ávidos pela notícia (ou para passar de ano), tentamos insistir. O Seu Cacique falou então que teríamos de esperar o pajé, já que ele falava melhor português e aquela coisa toda.

O problema é que o pajé estava caçando. E como estávamos no Riacho Grande, chegamos à conclusão que ele iria demorar muito para achar uma caça na região. Ou seja, ele não ia voltar.

Percebendo nossa desilusão, o Seu Cacique nos convidou para comer mandioca e beber um coca. É, uma coca.

“É o que temos”, ele disse.

Horas se passaram e, como prevíamos, o pajé não voltou. Mas nós não desistimos. Até que, já de saco cheio de nossa presença, o Seu Cacique resolveu tomar uma atitude.

Olhando bem para nossa cara, ele levantou, colocou as duas mãos na barriga e falou num português bem claro. Mas bem clarinho mesmo:

“Bom. Vocês já comeeeeeeeeram. Já bebeeeeeeram. E agora podem ir embora porque eu estou enojaaaaaaaaaado de vocês”.

E assim tivemos que rapidamente nos retirar. Sem a matéria, claro.

Quanto ao professor? Ah, eles nos passou de ano. Acreditou na nossa história. Afinal, nenhuma mente insana podia inventar tanta lorota. Certeza que eu e o Marquinhos estávamos dizendo a verdade. Ou não.


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