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Sem discussão
Sem discussão
Terça, 27 de Dezembro de 2005
* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais
- Imagina eu tomar um remédio desses, não tem cabimento doutor!
Foi assim que Roberto reagiu à receita passada pelo seu médico. Médico da família, conhecia Roberto desde que era pequeno, não era um desses doutorzinhos que a gente escolhe a dedo no livro do convêncio médico e descobre que seu consultório fica em um conjunto escuro no Largo da Batata, sublocado de uma vidente.
Roberto sempre foi assim. Não era só teimosia ou prazer em fazer birra, ser do contra. Simplesmente ele tinha uma certa dificuldade de aceitar as coisas que ele não comprendia ou discordava. Eu acho que acabei de descrever a teimosia, mas pelo menos para ele não parecia.
Quando pequeno a mãe tentou de toda forma fazer com que ele ao menos experimentasse couve-flor.
- Mas mãe... Eu não gosto...
- Como assim, menino?!? Você nunca colocou na boca um pedaço, como sabe que não gosta??
- Tem jeito de que eu não vou gostar...
E assim Roberto ao longo dos seus 42 anos nunca comeu couve-flor.
Na escola, era um aluno problemático. Não por ser briguento ou bagunceiro, mas por não aceitar muito bem convenções e explicações não muito convincentes, típicas daqueles professores que tem certeza que quem tem menos de 18 anos deve ser tratado como tal.
Os professores de matemática eram os que mais sofriam. Como fazer aquele moleque de cabelos desarrumado e olhos vibrantes aceitar que não existe divisão por zero? Ou então que qualquer número elevado à zero sempre vai dar como resultado um? Não é que ele fosse burro, ele apenas não admitia que pudesse ser tão simples assim.
Quando Roberto enfiava uma coisa na cabeça, não tinha como convencê-lo do contrário. Quando ele resolveu acreditar em um artigo suspeito de um jornal pouco crível que peixe de água doce fazia mal para a saúde, os feirantes perderam um cliente imediatamente.
Da mesma forma um namoradinho de sua filha durou muito pouco na posição e a fila andou mais rápido do que poderiam imaginar. Na verdade bastaram cinco minutos de conversa após se conhecerem para que Roberto se convencesse que o garoto era má influência, um drogado transtornado que levaria sua filha ao submundo do crime. Apesar do pobre garoto nunca ter experimentado nenhuma droga mais forte do que Fanta Maçã Diet.
É claro que isso gerou problemas durante toda sua vida. Mas com sua visão infexível do mundo que o cercava, isso nunca lhe pareceu ser fruto da sua postura intransitória e rígida.
Até a tal discussão com o médico. Realmente ele não tomou o remédio que lhe foi receitado. Em menos de um mês foi internado e foi parar na UTI. Não resistiu.
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