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Sem chacina não se faz justiça

Sábado, 8 de Abril de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

“Sem chacina não se faz justiça”. O Opala parou num farol movimentado no centro da cidade de Diadema. Com o som alto, o motorista teve dificuldade para perceber que um senhor, no carro ao lado, lhe chamava de forma impetuosa. Quando se deu conta, diminuiu o volume e abaixou o vidro.

Revoltado, o senhor do Astra criticava o adesivo do seu carro. Mostrava o dele que ordenava: “Consulte sempre um advogado”. Gritava de forma descontrolada. Falava de direitos humanos, bem-estar social, leis, cumprimento de pena, reorganização corporativa, necessidade de controle das massas e importância da família na criação dos filhos.

No auge do discurso, o cara do Opala achou melhor ignorar e novamente levantou o vidro. O ato foi avaliado como desacato pelo senhor, que desceu do carro e - aos murros – exigiu que o vidro fosse reaberto. Em seguida, deu voz de prisão.

O cara pediu calma. Disse que estava com pressa e, por isso, não tinha tempo para papo cabeça naquele momento. O senhor fez ouvidos moucos para o comentário e o monólogo prosseguiu.

O trânsito parou. Outras pessoas se aproximaram para ver o que estava acontecendo. Apontando para o adesivo do Opala e com uma retórica de fazer inveja ao prefeito Gilson Menezes, o senhor ganhava adeptos. Em poucos minutos todos estavam revoltados.

Uma moça, que carregava uma sacola do supermercado Barateiro, disse que não se conformava e atirou um tomate contra o Opalão. O cara decidiu tomar uma atitude. Levantou e esbravejou que só queria ir embora. Prometeu retirar o adesivo tão logo alguém prendesse o filho da puta que estuprou sua vizinha.

O advogado disse que ele estava fazendo apologia à violência e era um justiceiro profissional. Pegou uma algema da pochete e novamente deu voz de prisão. A multidão aplaudiu.

Sem titubear, o motorista do Opala sacou sua pistola semi-automática ponto 40 e disparou pelo menos oito tiros. Conseguiu fugir e abandonou o carro num matagal. Não sem antes arrancar e guardar o adesivo, o qual se popularizou poucos meses depois.

vem que é bão com a Rogéria | 3 vieram