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Sábado de Aleluia

Sexta, 25 de Março de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Márcia Maria tentou abrir os olhos. Não conseguiu. Sentiu na boca o gosto característico de cabo de guarda-chuva que sempre a acompanhava nos dias posteriores às suas aventuras etílico-sexuais.

Tentou se lembrar de como tinha chegado em casa. Também não foi possível. Conseguiu aos poucos remontar a noite anterior, uma Sexta-Feira Santa. O bar, a vodka Balalaika, os bolinhos de bacalhau (que comera por motivos religiosos), as repetidas execuções de “hoje é festa lá no meu apê”, o conhaque Dreher. Sentiu o vômito chegando à garganta. Não conseguiu se levantar e lançou tudo fora ali mesmo.

Notou então que estava acompanhada. Os olhos se abriram um pouco e ela conseguiu enxergar a camisa xadrez da pessoa com quem dividia a cama. Então, lembrou-se: era o cara que tinha encontrado na esquina, ao lado da igreja, quando estava chegando em casa.

Ficou feliz. Pela primeira vez nos últimos tempos um companheiro de balada não a tinha abandonado no meio da noite, antes que ela acordasse. Virou-se para o lado dele e abraçou-o, tentando demonstrar carinho.

O problema é que, neste mesmo momento, as crianças do Jardim Sônia Maria não conseguiam encontrar o bonecão de Judas que tinham montado no dia anterior. Tiveram que bater e incendiar um bêbado que estava caído perto da igreja. O padre, que também se recuperava do porre da noite da Sexta-Feira Santa, achou que o fato de o boneco se mexer e falar era um milagre de Sábado de Aleluia.



 



por Kleber Carrilho | Comentários