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Rua da palma, número cinco

Terça, 19 de Julho de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais


Foi com cerca de 12 ou 13 anos que o rapazinho descobriu seu maior talento. A bronha comia solta. Não se passava um dia em que ele não apelasse ao urubu-jereba. Ironia do destino, o pai dera-lhe o nome de Mimself. Queria ver o filho à sua imagem e semelhança, seguindo sua trajetória de altruísmo. Mimself, no entanto, era todo amor próprio.

O garoto descascava a mandioca o dia todo, cinco, seis, sete, oito, nove vezes! Ganhou grande habilidade. E não sabia fazer outra coisa além de jogar os dados. Ia mal nos estudos, largou o colégio. Só queria saber de aliviar as tensões. Tentou vários empregos, e em todos foi pego em pleno cinco-contra-um.

Não é difícil imaginar que Mimself era um grande incômodo em casa, para os amigos, para a sociedade. Rompia todos os pactos de não-agressão acordados com colegas em viagens, quando o banheiro é comunitário. Abrigava-se sem pudor na rua da palma, número cinco. Fazia homenagens até às mães dos amigos. Um horror.

Tentou fazer um cadastro no grupo Catho, pela Internet. Mas jamais conseguiu chegar à página para enviar o currículo. Achava outros atrativos na rede, o que também pouco importava, já que se excitava até com o formato do mouse.

Movido por sua única esperança, a de um dia conseguir virar fotógrafo de mulher pelada, Mimself conseguiu se formar no curso de fotografia. E, inspirado por anos de voyeurismo, tornou-se um grande fotógrafo de mulher pelada. O melhor.

O que parecia ser a melhor profissão do mundo, porém, passou a ser enfadonho para Mimself. Para ele, era insuportável aquele bando de modelos se oferecendo para fazer sexo. Não tinha a menor graça. Mimself só amava a si mesmo. Abandonou a carreira.

Mimself era punheteiro profissional. Profissão ingrata, sem registro em carteira e que não enche barriga. Nem mesmo a da parceira, obviamente imaginária.

Mentex e Costela | 2 comentários