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Rita de Cássia e o mendigo ZacariasSexta, 28 de Julho de 2006* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Numa noite chuvosa de março de 82, Rita de Cássia descia a toda a Consolação com seu Fusca 76. Lá no final, quando passava por um dos últimos semáforos, notou que atropelou alguma coisa. Olhou pelo retrovisor e viu um corpo estendido no chão.Desceu, no meio da chuva, e foi socorrer o pobre homem. Era Zacarias, conhecido mendigo que residia nas imediações, mais exatamente na Praça Roosevelt. Rita de Cássia o levou à Santa Casa, acompanhou seu sofrimento e no final descobriu que ele apenas tinha quebrado um braço. A ferida na perna na verdade era um contra-filé que ele usava colado na canela para impressionar os motoristas e transeuntes, na intenção de faturar um trocado. Zacarias e Rita de Cássia, depois do incidente, se aproximaram. Ele mostrou à garota de classe média as benesses da vida de mendicância: a companhia dos cachorros, a cachaça barata e as sobras de comida do Terraço Itália. Ela se apaixonou. Largou a faculdade, vendeu o Fusca 76 e abandonou a família na Mooca. Passou a viver seu grande amor entre a Consolação e a Praça Roosevelt. Até que, quase vinte anos depois, Zacarias a deixou por outra: a travesti Fabienne, que há muito fazia ponto nos arredores. Mas, como todo homem honesto, ele deixou o ponto de mendicância da Roosevelt para Rita de Cássia, como compensação pelos anos de companheirismo. E até hoje ela está por lá, contando essa história idiota para todos que dão uma graninha enquanto o farol não abre. Inclusive pra mim.
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Kleber Carrilho | Comentários
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