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Risco bebedeiraSábado, 12 de Agosto de 2006* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Bertioga, 27/07/02 –Jogava baralho... Truco. Seis. Nove. “Cai Filho da Puta”, gritei. É a última coisa que lembro... Durante a contabilidade alcoólica, consegui recordar três doses de conhaque Domus; cinco de cachaça Pé de Pano; quatro copos de caipirinha feita com água da chuva sem gelo; um copo de Vinho do Padre e dois goles bem servidos de Chora Rita. Ah, cerveja pela tarde. O que realmente ocorreu acho que nunca vou saber, porque nenhum amigo lembra de ter jogado truco comigo. Na versão deles, após a segunda virada de Chora Rita, sob a ode de Saracura de Nazareno, eu decidi dar uma volta pela cidade. Após sair pela janela da casa as versões são controvertidas. Um dos amigos diz que tentou me seguir, mas eu aleguei que queria rezar e, para isso, exigia privacidade. Para outros, eu disse que ia para a guerra. Uma amiga diz que subiu até a sacada da casa e conseguiu ver eu cair de cara na esquina. Isso explica o corte no nariz. Na hora em que chegou no local para ver se estava tudo bem, eu havia sumido. O padeiro da esquina onde eu desmoronei deu uma versão diferente. Eu não havia caído. Estava apenas tentando imitar um grupo de dança que se apresentava na escola de música localizada na frente da padaria. Meu falso tombo foi considerado um passo diferente e muito difícil de ser executado. Por isso as dançarinas me chamaram para acompanhá-las, o que explica a sapatilha de gesso que encontrei no meu bolso. Há ainda um mendigo que jura ser meu amigo. Ele não queria deixar eu voltar para São Paulo no domingo. Me deu um chapéu estranho de presente, feito de lata enferrujada e rabiola de pipa, e me convidou para mais um churrasco. Fico imaginando o tipo de carne que ingeri. Além destas, não tenho mais nenhuma informação de como fui acordar praticamente afogado. Tenho amigos que já dormiram em lugares estranhos, como lata de lixo; poça d’água; em cima de mesas de restaurantes; ou no barro. Eu mesmo já dormi na Rodovia Anchieta, na grama de divisão das duas pistas. Mas desta vez me superei. Acordei no mar, com uma criança chamando o pai aos gritos de: um homem morto, um homem morto! Como sempre gostei muito do mar cheguei a pensar que havia desencarnado e que estava no Plano Espiritual. Era uma surpresa de Deus para quem sempre tentou ser um bom menino. Mas na primeira onda que bateu no meu rosto percebi que não era bem isso. Me afoguei e não conseguia nadar porque estava mais preocupado em entender o que estava acontecendo do que em me salvar. Não demorou muito e o pai do garoto chegou. Ao ver que não era um homem morto e sim um ser esdrúxulo sofrendo de contínua crise de eructação, aquele senhor benevolente me arrastou para a praia. Conversando, ele sentiu o cheiro de bebida e advertiu que eu não deveria entrar no mar embriagado. Perguntou se eu queria ir a um Hospital, uma carona até em casa, ou que ele chamasse os meus pais. Agradecido, disse que não. Estava bem. “Eu vou a pé mesmo, meus amigos estão aqui no Centro de Bertioga”, disse. Foi quando o homem se irritou. “A pé? Bertioga? Além de beber, você andou usando drogas? Nós estamos na Praia do Gonzaga, em Santos.” O retorno para Bertioga fiz de ônibus clandestino, após pedir esmola no Boqueirão e vender a sapatilha em um farol por três reais. Como são generosos os caiçaras... |